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domingo, janeiro 21, 2007

RTP Não Não Não

Começa a ser escandalosa a cobertura da RTP à campanha para o referendo. Não tenho ligado muito às outras TVs, mas constatar que os meus impostos servem para financiar a propaganda do Não é de dar a volta ao estômago. É certo que já tiraram a imagem do recém-nascido do grafismo optando por um boletim de voto (até parece que lêem o renas), mas a expressão "referendo ao aborto" continua em alta, e as peças sobre o Não são sempre pelo menos o dobro (em número e tempo) que as do Sim. E além destas, como aponta o Miguel, seguem-se reportagens "inocentes" sobre partos em casa ou raparigas adolescentes que decidiram levar avante gravidezes não planeadas - good for them, sem ironia, só me pergunto, mas que raio tem isso a ver com o artigo que se referenda? Para os que não se lembram reza assim: «A mulher grávida que der consentimento ao aborto praticado por terceiro, ou que, por facto próprio ou alheio, se fizer abortar, é punida com pena de prisão até 3 anos.» Quem quer ter filhos pode continuar a tê-los e como bem entender, só não se quer obrigar ninguém a tê-los não os querendo, ok?

Mas não é só a RTP em alegre campanha pelo Não, o que me parece constituir uma grande diferença face a 98, altura em que a comunicação social esteve bem mais isenta. Nos tempos que correm qualquer indignação do CDS vale uma notícia, ora não sei quem que mandou uns mails, ora uma juíza que ousa ter opinião. Que se lixe a parte de haver na televisão pública um espaço diário da responsabilidade da ICAR em propaganda pelo Não desde que se começou a falar em referendo! E o sorriso enternecido de Judite Sousa ao apresentar uma peça sobre os betinhos beatos do "Diz que Não", a dizerem que iam ajudar as criancinhas, também é pago com os teus impostos! (By the way, alguém devia avisar essa miudagem que o RAP do Gato Fedorento vota Sim, pelo que convinha mudarem de nome). Mas deixemo-nos estar, cruzemos os braços como em 98... embalemo-nos no bonito discurso do "não partidarizem a campanha", que é o que mais se ouve nos últimos tempos, e vão ver a festa do CDS no dia 11 de Fevereiro.

PS: Incrível, não há mesmo pingo de vergonha. Hoje [22.01.2007] no Jornal da Tarde da RTP passaram duas peças sobre o referendo, a primeira sobre as declarações do bispo da Guarda (que o de Beja não interessava mostrar), que defende a pena capital para quem aborta, e depois um anúncio da caminhada pelo Não que vai haver em Lisboa. Reportagens sobre o Sim, zero! Não há mesmo vergonha! Já escreveste ao provedor?

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Leituras obrigatórias

5 anos do julgamento da Maia, ver as reportagens do Público reproduzidas no blog do Movimento Cidadania e Responsabilidade pelo Sim.

Os juízos dos juízes no Glória Fácil. Pergunta à f., mas há juízes não-escanzelados e não-franzinos? Ainda não conheci nenhum desses, mas juízes cujo maior problema existencial é o acne já tenho conhecido alguns, o que por si só é capaz de explicar muita coisa...

No Diário Ateísta óptimas postas sobre novas ficções, depois da "guerra ao natal" do Público, "o amuo de Ratzinger por causa de Sócrates" no Semanário. Especial atenção aos gráficos que mostram que a sociedade portuguesa está mais secularizada que a espanhola.

sábado, janeiro 13, 2007

RTP: Jornalismo abortado

Não, não vou repetir as minhas queixas pela campanha diária pelo Não do Padre Borga nas manhãs da RTP1 ou da campanha igualmente diária da ICAR nas tardes da RTP2. É mesmo do Jornal da Tarde que vos falo.

Na 5ª feira houve apenas espaço para o Não, uma conferência de uma qualquer sotaina em campanha por Vale de Cambra valeu uma notícia, no Sim nada lhes importou. Na 6ª feira as coisas foram mais equitativas no tempo, ou talvez não. Depois de uma entrevista a uma jovem que já abortou em condições de clandestinidade seguiu-se a de uma mão adolescente a quem "nunca passou pela cabeça abortar". Ora se nunca lhe passou pela cabeça abortar que raio de interesse poderá ter a sua estória em relação ao que se discute agora? Afinal nada de diferente se teria passado em relação ao seu caso particular, fosse legal ou ilegal abortar. Finalmente hoje, mais uma homilia de Fátima, entrevistas de rua aos crentes, e pelo Sim? Apenas o anúncio que Jorge Coelho ia lançar a campanha do PS.

Mas fosse só este claro favorecimento de tempo de antena ao Não. O favorecimento ao Não na RTP é a todos os níveis, e começa logo na apresentação do tema: "referendo ao aborto". Mas referendo ao aborto de quem? Da ética jornalista no serviço público? Parece-me abortada há muito. Aborto da RTP? Aborte-se então. Como já escrevi aqui, "referendo ao aborto" não pode ser tolerado como um resumo de "referendo à despenalização da IVG". Não é a mesma coisa. Dizer "referendo ao aborto" é entrar na lógica do Não. Não é jornalismo, é distorção e manipulação. Tal como falar em "movimentos contra e a favor do aborto", já perdi a conta às vezes que ouvi isto na RTP! E como se não bastasse usam um feto de não sei quantos meses como grafismo para o tema, ao invés de um isentíssimo boletim de voto ou martelo da justiça, ou seja, aquilo que afinal se discute. Televisão pública assim mais vale abortar de vez. É isso mesmo que vou dizer ao Provedor.

sábado, janeiro 06, 2007

Déjà vu

A avacalhação da campanha já começou, e daqui até 11 de Fevereiro o mais provável é que a coisa vá agravando. Como bem disse Ana Sá Lopes, avacalhar é abrir alas para o Não. E isto por uma razão simples, os moderados do Sim prezam imenso a sua moderação e muito pouco o seu Sim. Avacalhando a campanha eles já não se metem, ou melhor, metem-se para atacar os "radicais do Sim", acrescentando sempre que tem muito respeito pelo Não, salvaguardando assim a sua imensa moderação, que é o que importa.

Já o Não não tem destes problemas, o que importa é facturar votos, dê por onde der, para que não se ponha em causa do seu poder, a sua influência. Mentem, distorcem, fazem falsas promessas (educação sexual, não aplicação da lei que defendem, etc), e tudo vai bem, ninguém ataca ninguém, é só palmadinhas nas costas. Os menos moderados (no Não não há radicais) lá se vão entretendo com panfletos de recém-nascidos mortos e agendamentos de comícios pelo Não no domingo do referendo. E assim vai o país, e não é a primeira vez. Para já a única diferença que noto em relação a 98 é que as sondagens não dão uma margem tão grande ao Sim...

PS: E na RTP continuam a falar em "referendo ao aborto", "movimentos contra o aborto", "movimentos a favor". Contribuir com os meus impostos para o jornalismo rasca? Assim é.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Menos sorrisos nas fotos dos diários

Este título é de uma notícia do JN de hoje. Mas eu acrescentaria que também há menos sorrisos na cara dos leitores dos diários, e isto porque os diários amam as más notícias. No mesmo jornal é noticiado hoje o mais recente ataque ao casamento entre pessoas do mesmo sexo no Massachusetts, que poderá levar a um referendo sobre a matéria, sem contudo haver qualquer referência às várias sondagens que revelam que a maioria dos eleitores daquele estado americano está contra esse reverso.

Esta foi, salvo erro, a primeira notícia do JN sobre direitos LGBT em 2007. Podiam ter noticiado os números das uniões civis checas revelados no dia 2, a primeira união civil gay na Suíça ou, melhor ainda, este importante passo para a oficialização e normalização da adopção de crianças por casais de gays e lésbicas no Brasil (recordo que já houve alguns casos de adopção, mas por decisão de juízes, sem que tal esteja explicitamente previsto na lei e mecanismos processuais). Mas não, a má notícia voa, a boa tem que se procurar.

segunda-feira, janeiro 01, 2007

Papa começa o ano a insultar as vítimas de terrorismo comparando-as a embriões

É o que diz a imprensa portuguesa. Curioso é notar no Google News como divergem os títulos dos sites portugueses dos brasileiros, sendo que estes últimos não têm nenhuma referência ao aborto. A igreja não precisa de se esforçar muito para que a comunicação social portuguesa lhe estenda a passadeira vermelha. Basta que transformem as suas missinhas sagradas de dias santos em comícios políticos da mais barata demagogia. Muda-se o ano, mas o fedor que chega de Roma continua o mesmo. Volta Nero, estás perdoado.

PS: Eu sei que isto ainda agora começou, mas mais uma razão para não haver dúvidas, até ao momento o post do ano é este.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Os movimentos contra e a favor do quê?

Isto estava na primeira página do Jornal de Notícias de ontem. E isto mesmo já ouvi dizer ao apresentador do Telejornal da RTP1, José Rodrigues dos Santos. Isto não pode ser tolerado como um resumo legítimo de "movimentos a favor e contra a despenalização da interrupção voluntária da gravidez", porque uma e outra não significam o mesmo. Isto é mau jornalismo, é desinformação, é a subversão do que se referenda. Provavelmente a maioria das pessoas dos movimentos pelo Sim é contra o aborto, no sentido em que nunca abortaria e vê-o como algo necessariamente mau, ao passo que muita gente do Não já abortou e tornará a fazê-lo se achar necessário. O que se referenda é se as mulheres que abortam por opção devem ser sujeitas a perseguições policiais, julgamentos e penas de prisão ou não.

Já agora, esta manchete era sobre as declarações do bispo do Porto, que comparou o aborto à roda dos bebés abandonados. O que os jornalistas (tv, jornais, etc) não disseram é que a roda não era medieval, era usada em Portugal pelo menos até ao século XIX e é usada actualmente (com outra designação e formato) em países como a Alemanha. O sentido crítico do jornalismo português anda tão fraco que estas mesmas declarações foram repetidas até à exaustão, sem que ninguém comentasse o facto do bispo as ter proferido numa igreja às moscas em pleno dia de natal. Isso é que era capaz de dar uma bela reportagem.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

O Público continua a errar, e cada vez mais

Ainda a "Guerra ao Natal", coisa inventada no ano passado pelos neo-cons americanos para ofuscar a Guerra no Iraque, mas que os neo-cons portugueses só conseguiram imitar este ano, guiados por esse farol do jornalismo beato que é o L'Osservatore Romano. Ora o púlpito do mais reluzente neo-conismo luso é o jornal Público, que por estes dias continua a promover e difundir uma alegre mistura de factos descontextualizados, opiniões, invenções e paranóias que visam provar essa gigantesca conspiração internacional anti-Natal (sendo que "Natal" para o Público refere-se exclusivamente ao nascimento daquele palestiniano milagreiro que terá vivido há +/- 2000 anos, apesar dos traços comuns com milagreiros anteriores - gregos e outros - sugerir que seja mera versão palestiniana do mito original).

Mas se na América os culpados da "Guerra ao Natal" eram os judeus, para os nossos neo-cons a culpa é dos muçulmanos supostamente ofendidos (coisa bizarra, dado que também o Islão dá crédito ao milagreiro referido), mas sobretudo da laicidade e de quem a defende, pois claro. Na verdade as "proibições" que se lêem no Público são na sua maioria não-celebrações, ou seja, não sujeição a este clima de obrigatoriedade de festejar o nascimento do crucificado oriental. É precisamente para isso que serve a laicidade, para libertar as pessoas de imposições religiosas, para tornar o estado neutro, e cada um, livremente, decidir por si se quer acreditar ou não em estórias da carochinha, e qual a que mais lhe agrada.

O que o Público não questiona, e talvez fosse oportuno questionar, são os gastos das autarquias portuguesas com a histeria natalícia. Autarquias que muitas vezes não conseguem servir todos os seus cidadãos de água ou saneamento, mas que estão sempre prontas a largar largos milhares de euros em presépios gigantes de peluche imprudentemente largados em rotundas ou beiras de estrada. Mas a agenda do Público é outra, e vai daí temos que levar com o choradinho do católico perseguido - os desgraçados.

Sobre tudo isto a não perder os posts do Diário Ateísta, nomeadamente «A Guerra continua, Cristo no meio da rua!» do Ricardo Alves.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Do 8 ao 80

«O juiz Pedro Albergaria reconhece no entanto que a violência entre homossexuais tem expressões tenebrosas.

A ILGA diz o mesmo e lembra que a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima já recebeu várias queixas referentes a casais do mesmo sexo.
»
Não é nada disso que diz o juiz, o que ele diz é que a violência contra os homossexuais tem expressões tenebrosas. É praticamente a única coisa acertada que diz e logo vem a SIC distorcer as coisas... A citação correcta:
«Em quarto lugar, e contíguo ao que acabei de afirmar, estou certo que a violência sobre os homossexuais assume, entre nós como em outras latitudes, expressões bem tenebrosas e não menos sinistras. É bem conhecida a realidade urbana de grupúsculos de delinquentes, geralmente adolescentes, que não arranja outro modo de afirmar a sua masculinidade que não seja através da sistemática agressão sobre quem escolheu uma orientação sexual diferente da sua.»
"Escolheu uma orientação sexual" é que é mais giro do que acertado. Quando é que o sr. Albergaria escolheu ser hetero? E porquê? Que prós e contras pesaram na sua decisão? Morro de curiosidade...

Entretanto têm saído muitas notícias sobre esta polémica, felizmente em geral mais rigorosas que a da SIC on-line, é ver no Google News e estar atento aos telejornais que também devem falar no caso.

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Quando o jornalismo sério parece ser proibido

É o que ocorre quando se vêem coisas como esta publicadas. Comecemos pelo título "Quando festejar o Natal é proibido", estão a pensar no Afeganistão ou na Coreia do Norte? Desenganem-se, o cenário deste bonito folhetim de natal do Público é o Reino Unido, a Espanha, os Estados Unidos e até o pequenino Portugal. Veja-se o primeiro parágrafo:
«Festas de Natal proibidas numa escola em Saragoça (Espanha) para não ofender crentes não-cristãos, empresas que não querem festas natalícias no Reino Unido, árvores de Natal removidas e depois recolocadas no aeroporto de Seattle (EUA) na sequência de polémicas sobre as decorações. O Natal, festa que comemora o nascimento de Jesus Cristo, está a ser limpo da sua raiz, com argumentos como o pluralismo e a laicidade.»
É o salve-se quem puder! Ou talvez não. As "festas de Natal proibidas numa escola em Saragoça" afinal não são várias, mas apenas uma, e não foi proibida, simplesmente não foi realizada. O que o Público não diz é que a escola tem sido atacada por todos os lados por esta simples não celebração. Caso para dizer, quando festejar o Natal parece ser obrigatório.

As empresas que não querem festas natalícias no Reino Unido não são nomeadas na "notícia" do Público, que cita o The Sun - cada vez mais o equivalente britânico ao Público. Mas olhando de forma não ingénua para a coisa, concluiremos que os custos e a sujidade que costumam resultar destas festas, tradicionalmente regadas com muito álcool, serão as causas dessas recusas, e não qualquer pudor religioso - que de religioso pouco ou nada têm as ditas festas em terras de sua majestade.

As árvores de Natal do aeroporto de Seattle foram recolocadas, como diz o Público, e as "polémicas", como se lê em seguida, eram afinal um mero pedido para que o aeroporto usasse também decorações alusivas Hannukkah, que foi mal interpretado - incompetência, nada mais.

Finalmente a "festa que comemora o nascimento de Jesus Cristo" que está a ser "limpa da sua raiz", quem diria? Por acaso as raízes do Natal estão longe de serem cristãs, cristã foi a apropriação de celebrações invernais com múltiplas origens, razão pela qual alguns símbolos pagãos são vistos hoje como "cristãos", porque natalícios - a árvore, por exemplo. Isto é tão verdade que no Reino Unido, e também em Boston, o Natal já foi efectivamente proibido, mas pelos cristãos, no século XVII, que o repudiavam (violentamente) pelas suas origens pagãs.

O Natal de cristão nunca teve muito, e no nosso tempo é sobretudo a festa do consumo e do espírito de solidariedade forçado, celebrada de Roma a Tóquio ou Banguecoque. A mim, como ateu, não me ofendem nada as iluminações ou árvores natalícias, até lhes acho alguma graça quando aparecem em Outubro, embora em Dezembro já andemos todos fartos. Choca-me, isso sim, que na escola pública crianças sejam obrigadas a declamar versos como «Eu sou a escrava do Senhor; que se cumpra o que me disseste.», quando provavelmente nunca lêem nenhum discurso sobre os princípios da nossa República. Choca-me é este jornalismo panfletário e alarmista, que ainda por cima não passa de uma repetição tosca da "war on christmas" inventada pelos neo-cons americanos no ano passado, para ofuscar a verdadeira guerra (promovida por cristãos) no Iraque.

E para provar que aqui no renas não temos nada contra o Natal, deixo duas sugestões bem natalícias:

1) Importe-se a Santa Speedo Run para Portugal! Já aqui tínhamos falado desta corrida tradicional de Boston, e não desistimos enquanto não for transposta para as ruas do Porto.

2) Caganer do Bentinho, se querem mesmo fazer um presépio, façam-no com estilo. E este ano o caganer da moda é do Bento!

E já agora, um bom Natal.

domingo, dezembro 17, 2006

É você, que o seu voto não nos agrada

Depois de lançar esta votação aos seus leitores on-line, a revista Time optou por decidir que a "pessoa do ano" é "você", ou seja, os internautas, aqueles que "controlam a era da informação", aqueles que se dão ao trabalho de participar em votações on-line, mesmo que esse voto afinal não sirva para nada...

sábado, dezembro 16, 2006

Bush diz-se feliz com gravidez da filha lésbica de Dick Cheney

Procurando no Google News em português encontra-se esta notícia em vários sites brasileiros, num angolano e num suíço. Porque é que isto não é publicado em Portugal?

PS: Obviamente que num "mundo ideal" isto não seria notícia, porque não se fariam notícias a partir da vida privada das pessoas... Mas esse não é o nosso mundo, e não é certamente essa a regra da imprensa portuguesa. Aliás, foi a própria Mary Cheney a tornar pública a sua gravidez. Não se percebe por isso o silêncio em Portugal.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Jogo de Espelhos

Desde a passada sexta-feira que tenho adiado escrever sobre o documentário exibido pela RTP1, "Jogo de Espelhos" de Margarida Metello, sobre Gisberta, o seu assassinato e seus assassinos. Eu gostei muito, sóbrio, completo e capaz de dar a voz a todos os intervenientes e um rosto à vítima. Assim ficamos a saber que não é homicídio segundo a lei portuguesa se o corpo, que julgámos cadáver, ainda estiver vivo no momento de o atirarmos à água, com intenção de oculta-lo e não de mata-lo por afogamento. Isto porque não houve premeditação. Curiosa teoria se confrontada com a letra do rap mostrado no documentário, do grupo "The Gang", em que se prometiam varridelas das ruas, que incluiam a morte de "gunas e paneleiros". Este foi aliás o ponto mais revelador do documentário, eu que segui o caso com relativa atenção, nunca tinha ouvido isto e não imaginava que o grupo fosse organizado ao ponto e ter um nome, "The Gang", e de ter um discurso claramente de extrema-direita.

Este "The Gang" é fruto de um dos muitos orfanatos portugueses, dos quais pouco ou nada sabemos. As descrições do funcionamento da Oficina S. José foram arrepiantes. Milhares de crianças neste país vivem neste tipo de instituições, e é como se vivessem num universo paralelo, pouco se sabe e poucos se interessam. Não sabemos sequer o nome das instituições, só quando alguma tragédia por lá se passa é que os nomes chegam aos jornais e manchetes.

Bom, não há regra sem excepção. A Ajuda de Berço é uma dessas excepções, apesar da pequena dimensão (segundo o site oficial tem apenas 5 quartos), é imbatível no que toca ao mediatismo positivo. E é também a menina dos olhos dos movimentos pelo Não, que sempre a apontam como o seu grande feito (lembro que esta instituição nasceu destes movimentos depois de 1998). A lista de apoios, disponível no seu site, impressiona: RTP, SIC Mulher, Câmara Municipal de Lisboa, Swatch, Jogos Santa Casa, Pingo Doce, Montepio Geral, Banco Espírito Santo, Gelados Olá, Casino Estoril ou Patriarcado de Lisboa, entre vários outros. Sem esquecer, é claro, o Ministério da Segurança Social e do Trabalho.

Uma autêntica máquina de marketing, que conta ainda com uma linha telefónica de valor acrescentado, para donativos, ou venda de bonecos. Contraste absoluto com instituições que albergam muito mais crianças, mas que são completamente desconhecidas pela opinião pública. Mérito, é claro, a quem gere esta instituição. E provavelmente consequência natural de ser fruto de uma campanha política. Que de resto se mantém, no mesmo site encontramos ainda, logo na página principal, uma sugestão radiofónica, a Web Rádio Católica, "a primeira rádio pró-vida em Portugal" (sic).

quinta-feira, dezembro 07, 2006

quinta-feira, novembro 30, 2006

Será isto o "jornalismo de causas"? (2)

Fujo, durante o meu zapping de almoço, à apresentação por Manuel Alegre do seu último livro, sobre bola, no programa Fátima, de Fátima Lopes, na SIC. E acabo por levar com José Rodrigues dos Santos, apresentador do Telejornal, a apresentar o seu calhamaço "A Fórmula de Deus" na Praça da Alegria, na RTP1. No espaço onde habitualmente vemos o Padre Borga, a falar de coisas como o "respeito pela vida", pudemos ver hoje o jornalista da casa a falar sobre as "provas científicas da existência de deus" (sic), qualquer coisa que estará algures na lógica "o copo é uma invenção inteligente, mas não é a água mais inteligente que o copo?". Siderado fiquei, tal como os apresentadores da alegria da manhã, que remataram com um passatempo que implica gastar uns 70 cêntimos numa chamada e com sorte, se deus quiser, receber o dito calhamaço e as suas provas científicas em casa. Será que finalmente a Cientologia chegou a Portugal? Não houve tempo para esclarecer a dúvida, porque a seguir era altura de entrar a astróloga de serviço, Cristina Candeias, e como disse Sónia Araújo, apresentadora da alegre praça, "a astrologia também é uma ciência". Ora embrulhem sff.

Será isto o "jornalismo de causas"?

«Rádio Renascença defende "não" no referendo ao aborto»

Nós já sabíamos isto, mas é bom que a própria ponha as coisas em pratos limpos. A Renascença não está na campanha para informar, mas para apelar ao voto Não. Fica no entanto uma dúvida, terão os "jornalistas" da Emissora Católica legitimidade para no dia do referendo fazerem cobertura junto às urnas de voto? É que o artigo 133º da Lei Orgânica do Regime do Referendo diz «por propaganda entende-se também a exibição de símbolos (...) representativos de posições assumidas perante o referendo». No mínimo cubram os microfones.

Fetos de silicone

«It was an extraordinary picture of an unborn baby elephant from inside its mother's womb, making front page news in London and around the world. Except it wasn't real - it was a model.»
Foram vários os jornais portugueses a cair no logro, aguardam-se os desmentidos e recomenda-se cuidadinho no uso de "fotos" de fetos humanos.

sábado, novembro 18, 2006

Do que não fala a imprensa

aqui me tinha queixado do pouco que se falou na imprensa portuguesa sobre a criminalização total do aborto na Nicarágua, entre outros temas. Lanço agora nova lista de assuntos tabu da comunicação social portuguesa:

1) Legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo na África do Sul. Vários motivos pelos quais o assunto devia ter despertado a atenção da imprensa portuguesa. A África do Sul tem das maiores comunidades portuguesas a residir fora do país, foi a primeira república em todo o mundo a avançar com esta lei, o primeiro país africano, e como lembra a ILGA Portugal:
«A decisão do Tribunal Constitucional da África do Sul tem um eco particular no caso português. De acordo com o Tribunal, a anterior definição legal de casamento era "incompatível com a Constituição e não válida na medida em que não permite aos casais do mesmo sexo beneficiarem do estatuto e das vantagens, bem como das responsabilidades, que atribui aos casais heterossexuais". A Associação ILGA Portugal chama a atenção para o facto de existir a mesma proibição explícita da discriminação com base na orientação sexual nas Constituições da República Sul-Africana e da República Portuguesa. Portugal é, aliás, o único país da Europa cuja Constituição inclui essa proibição explícita.»
E tal como aconteceu na África do Sul, também nos tribunais portugueses anda um processo que procura esta medida. Teresa e Lena, lembram-se?

2) Por falar em ILGA, os prémios arco-íris 2006 (fotos e discursos no link) foram simplesmente ignorados pela imprensa nacional. Valha Espanha, a agência EFE noticiou, e os ditos foram notícia da Tribuna de Salamanca ao El Mundo.

3) Esta é por antecipação. Está a ser lançada agora uma petição mundial pela descriminalização da homossexualidade em todo o globo (lembro que continua a ser crime o sexo consentido entre adultos do mesmo sexo em boa parte da Terra, sobretudo em África e Ásia, mas também em países como a Nicarágua ou a Guiana, e é punido com pena de morte em 9 destes países). A petição já conta com assinaturas sonantes como a do sul-africano Desmond Tutu ou a austríaca Elfriede Jelinek, ambos laureados com o prémio Nobel (paz e literatura respectivamente). Uma lista provisória pode ser lida aqui, já lá têm dois nomes portugueses, mas há mais. Será que nisto a imprensa pega? Mais informações sobre como vão ser recolhidas as assinaturas em Portugal em breve, quanto mais não seja, no renas.

quinta-feira, novembro 09, 2006

Era um murro destes se faz favor

Um site facílimo de usar e que vai registando o sentido de voto (progressista ou conservador) dos membros do senado e da casa dos representantes dos Estados Unidos - descoberto n'A Vila. A ideia é tão simples quanto poderosa. Bem sei que alguns deputados provavelmente ficariam aterrados perante a criação de algo deste tipo em Portugal, e rapidamente viriam as comparações a "listas negras" ou "polícia ideológica". Mas é precisamente este tipo de coisa que é perfeitamente legítimo fazer, e que aproxima e esclarece as pessoas sobre a política.

A contrário da vida amorosa dos políticos, coisa que tem estado muito na moda ultimamente na imprensa nacional. Mas, note-se, apenas em relação a vidas amorosas heterossexuais. Um curioso critério discriminatório que nos vai poupando a ler sobre os amores e desamores de uma série de políticos da praça de não pequena relevância.

terça-feira, novembro 07, 2006

A comunicação social e o aborto: 3 perguntas pertinentes

1) Não é só a Renascença, também a RTP gosta de ilustrar as apresentações das suas peças sobre o referendo à despenalização da IVG com imagens de fetos com mais de 10 semanas. Porquê? Mas o referendo não é sobre uma questão penal? Não é sobre se se punem ou não as mulheres que abortam até às 10 semanas? Cadê o martelinho de juiz ou as grades da cadeia que se vêem em qualquer outra apresentação de notícias sobre temas penais!?

2) Porque razão quase não se ouviu falar da reforma penal nicaraguana? Numa altura em que se discute a alteração da lei portuguesa parece-me elementar destacar-se isto. Será que o silêncio se vai manter face à Polónia? É que não deixa de ser engraçado que se passe a vida a ouvir falar "nos perigos da liberalização", quando a lei socialista continuará a ser das mais restritivas do continente europeu e quando os sinais de alterações mais recentes a nível global são extremamente preocupantes, e seguem o sentido apontado pelo Vaticano: criminalização até quando o aborto é justificado pela existência de risco de vida para a mulher.

3) Porque ninguém pergunta à Miss Vodka Laranja sobre a legitimidade de suspender os julgamentos a mulheres que abortam no caso do Não ganhar? É que a senhora anda por aí feita tresloucada a gritar aos quatro ventos que se podem travar os julgamentos mesmo que o Não vença, e eu não estou a ver como fazer isso sem desrespeitar por completo esse hipotético resultado. Ou a senhora é mesmo burra e acredita no que diz, apesar de ser óbvio que toda a restante frente criminalizadora vê com bons olhos uma alteração à la Nicarágua. Ou então a senhora mente intencionalmente, visando confundir o eleitorado, e naturalmente que deve ser confrontada com as suas incoerências.