E ainda dizem que o milho-rei é vermelho
«Para Pacheco Pereira parece não fazer qualquer diferença: um negro, uma maçaroca de milho...»Se calhar até faz. Veja-se a quantidade de posts que JPP e restante blogosfera de direita tem dedicado a 2% de um milheiral transgénico no Algarve. Compare-se por exemplo com a indignação que essa mesma gente demonstrou aquando do assassinato da Gisberta. Alguém se lembra de post algum? O crime foi também praticado por jovens, houve "comunicados" anteriores (tinham raps onde prometiam "varrer os paneleiros das ruas" (sic), e tinham igualmente um background político - afinal viviam todos num orfanato gerido pela igreja católica. A grande diferença entre os dois casos é que a vítima do primeiro não era uma espiga de milho, e a tortura a que foi sujeita não durou uma só tarde.
Mas não são só os blogs. Seria extremamente interessante e revelador contar o número de notícias saídas nos últimos dias sobre os estragos num campo de milho (avaliados em cerca de 3000 euros), com as publicadas em 2006 sobre o assassinato da Gisberta. Só num país em que o grosso da imprensa é controlada pela direita e alimentada por estagiários semi-analfabetos é que um campo de milho pode merecer uma entrevista ao presidente da república, sem que na mesma semana se lhe pergunte sobre as centenas de milhar de euros recebidos ilegalmente pelo seu partido da mão de construtores civis ou sem que alguma vez lhe tenham perguntado sobre o assassinato e tortura da Gisberta.
É que isto da ideologia política consistir na defesa dos privilégios dos ricos e poderosos, torna difícil o recurso ao sempre eficaz discurso da vitimização. Pelo que uma espiga de milho esmagada por um qualquer francês pedrado de férias no Algarve, e que se diga de esquerda, se torna irremediavelmente num valioso e raríssimo mártir da direita portuguesa. Definitivamente, para a direita, uma maçaroca de milho vale muito mais que um preto e uma transsexual juntos e ensanguentados.



