segunda-feira, outubro 15, 2007

Maldições ibéricas

Dois belíssimos cartoones de Manel Fontdevila, cartoonista do novo diário espanhol Público. Referem-se ambos à recente beatificação em massa de "498 mártires espanhóis do séc. XX" pelo Vaticano. A beatificação veio mesmo a calhar para manchar a aprovação, pela esquerda, da lei da memória histórica, que entre outras coisas se propõe limpar Espanha da simbologia fascista que persiste. Os demoradíssimos e rigorosíssimos processos de canonização podem portanto sofrer fortes acelaradelas se tal for politicamente conveniente. Pelo meio ficaram esquecidos 16 religiosos bascos, mortos pelas tropas franquistas. Azarinho.

Não seria contudo difícil adaptar estes cartoones à actualidade portuguesa. No primeiro coloque-se Sócrates em vez de Zapatero a dizer: "E agora, deixam que outras religiões possam prestar assistência espiritual nos hospitais públicos?". E no segundo, um busto de Salazar em vez de Franco, a perguntar pelo atraso na canonização da Lúcia e com o cardeal a responder satisfeito: "É só para que saia primeiro a sua!".

sábado, outubro 13, 2007

Estrangeiro tenta instigar católicos portugueses à rebelião

«O cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano, apelou hoje [em Fátima] à "rebelião" dos cristãos face aos "senhores destes tempos" que exigem o silêncio dos cristãos "invocando imperativos de uma sociedade aberta". (...)

Na sua homilia, o cardeal Tarcisio Bertone alertou para o facto de, nos tempos de hoje, muitos imaginarem "que a vitória depende essencialmente do talento, da habilidade, do valor dos que escrevem nos jornais, dos que falam nas reuniões, dos que têm um papel mais visível e que seria suficiente animar e aplaudir estes chefes como se anima e aplaude os jogadores no estádio".

"Não existe erro mais temível e desastroso!", disse o "número dois" do Vaticano, acrescentando que "se os soldados algum dia chegassem a pensar que a vitória já não dependia deles, mas somente do Estado-Maior, esse exército marcharia de desastre em desastre".»
Por certo a alternativa democrática, a igreja formar finalmente um partido político e sujeitar-se ao voto popular, nem lhe passou pela cabeça. É mais fácil fazer inconsequentes apelos a golpes de estado em países estrangeiros. Tão ridículos que nem serão acusados de traição à pátria, instigação da desordem social e essas coisas... Até passam horas na TV pública para adormecer velhinhos e são bovinamente citados em jornalecos da praça, ou melhor, prado.

Tanta bandeirinha hasteada em tempos de bola, e tão pouco brio quando vêm fazer pouco da nossa independência dentro de portas. Enfim, ainda as consequências dos 40 anos de espera que o Vaticano reconhecesse o reino, para o dar como independente... e vassalo da Igreja de Roma.

quarta-feira, outubro 10, 2007

Bentinho 16 já tem rival

Arf arf ou o poder de sedução de uma longa capa vermrrrr... encarnada. O cardeal espanhol Antonio Cañizares não o faz por menos, e ordenou dois novos padrecos (yep, ainda se fabricam) seguindo os ritos anteriores ao Vaticano II, quando a igreja não era apenas fascista, mas também muito mais rococó. Aguardo ansioso a resposta de Bentinho a este avanço nas tendências Outono/Inverno para clérigos.

Sotaina que ladra, não morde

Este texto do Rui Tavares desmonta na perfeição a falsa polémica sobre a "assistência religiosa" nos hospitais públicos. No fundo passou-se agora o mesmo que aconteceu aquando da aprovação da lei sobre a procriação medicamente assistida. Tanto uivaram, tanto urraram, tanto ameaçaram antes do tempo e sem motivo aparente, que Portugal tem hoje uma das mais recentes, mas também uma das mais retrógradas, conservadoras e discriminatórias leis sobre a matéria. Cereja no topo do bolo: foi a esquerda que a aprovou, Bloco, PS e PCP. Capuchinhos vermelhos a lidar com lobos maus.

Sopinhas de peixe ou os mártires da direita

Costureirinhas que perdem o palanque numa tv privada para logo nos aborrecerem numa pública. Campos de milho massacrados por eco-terroristas. Professores mal educados que viram perseguidos políticos. A direita é um desfilar de horrores e tragédias que conseguem a mediatização que florestas vandalizadas por escuteiros, sindicatos assediados pela polícia ou a inexistência de telecomentadores de esquerda jamais conseguirão. Falemos da mais recente vítima:
«É o pivô há mais tempo no ar em horário nobre (16 anos) e, segundo um estudo do Observatório da Comunicação, o mais apreciado da informação televisiva. E denuncia: a administração interfere nas decisões editoriais da informação na RTP. E “passa recados” do poder político. Numa entrevista respondida por correio electrónico, revela que não interfere no alinhamento do Telejornal e que hoje não recusaria os convites que lhe foram feitos por outras estações, em Portugal e no estrangeiro. Mas diz que, neste momento, não quer sair da RTP.»
Esta é a introdução da "polémica" entrevista. Não é preciso ir mais longe, que nada se aprofunda. José Rodrigues dos Santos é muito "apreciado", tal como são os Malucos do Riso. Manda piadinhas no fim dos noticiários, pisca o olho, faz um ar comovido/no limiar do vómito com notícias do tipo Maddie McCann, enfim, é por isso, e só por isso, que rivaliza com os Malucos em popularidade. Bem, talvez o livro/lista telefónica onde garante "explicar a fórmula científica que prova a existência de deus" lhe renda também algumas simpatias junto de determinados públicos.

Quanto à ética ou qualidade jornalística basta reler a citação acima. Diz que não interfere no alinhamento do noticiário pelo qual dá a cara diariamente. Pelo contrário, diz que o poder político o faz. E diz que, mesmo assim, não quer sair da RTP. Está tudo dito. É esta a integridade jornalística paga a peso de ouro pelo canal público de televisão.

terça-feira, outubro 09, 2007

Semear o Outono

O Outono está a chegar mas nota-se pouco. Ironicamente é até nas cidades onde mais facilmente se topam cenários outonais, parques repletos de folhas caídas. Já nos bosques minhoto-durienses é o domínio quase exclusivo dos sempre verdes (mas pouco) eucaliptos, acácias e pinheiros. Reflorestar com árvores de folha caduca urge! Este guia da Universidade de Vigo (também em inglês) é um bom começo para quem se quiser lançar na tarefa, está especialmente vocacionado para grupos que queiram semear em baldios ardidos, por exemplo. Este outro, inglês, explica como semea-las em vasos e só depois de germinarem e crescerem as transplantar para o terreno - provavelmente o ideal para quem tenha algum, pouco, terreno disponível. É possível que se encontre on-line material português semelhante, mas eu não achei. A altura para recolher as sementes (não só de carvalhos, mas também castanheiros ou bétulas (bidoeiros)) começa agora, por isso mãos à obra. Quem quiser integrar um grande projecto já em marcha creio que se pode juntar à campanha 1 milhão de carvalhos para a Serra da Estrela.

segunda-feira, outubro 08, 2007

As coisas que os contribuintes pagam...

Ainda me lembro bem de uma denúncia que tentei fazer chegar à GNR, que tudo fez para a não aceitar. Ser vítima de vandalismo não convence a GNR se não se é o proprietário, mas apenas o utilizador no momento do crime. Já para apreender erva, é uma festa! Não a sério, isto beneficia quem exactamente? Isto é, tirando os produtores marroquinos, os seus dealers exportadores e o bom humor da esquadra onde as plantas fiquem armazenadas, isto interessa a quem exactamente?

À balança comercial portuguesa não é certamente, e ao fumador de ganza tanto se lhe dá, como se lhe deu - a ganza é omnipresente, como nem deus algum dia sonhou ser. Portanto, ocupa-se a bófia com plantaçõezinhas que não fazem mal a ninguém, lixa-se a vida a meia dúzia de agricultores que já a deviam ter difícil para se meterem nisto e aumentam-se as importações de Marrocos. Sim, muito inteligente. Obrigadinho ó da guarda! Sempre valeu a pena não apanharem antes o gajo que me riscou o carro...

Arautos da liberdade feitos ratos da corte espanhola

Noto com algum espanto a indiferença com a actualidade política basca que se vê pela blogosfera portuguesa, particularmente entre a liberal. Criam-se leis para ilegalizar partidos, ilegalizam-se os ditos, e agora prendem-se os seus militantes mais destacados por causa de uma "reunião ilegal" e ninguém se indigna? Estranho. Se fossem neonazis já estaria Pacheco Pereira em vigília à porta da embaixada espanhola.

Por outro lado ao anúncio de um referendo no país, o bloco central espanhol (pois, para assuntos excepcionais também há um em Espanha) responde com insultos e ameaças de perda da autonomia existente. E por cá ninguém diz nada? Já se esqueceram todos do referendo de Timor Leste? Agora é aceitável este tipo de ameaça?

Voltando atrás, vale a pena fazer uma comparação entre o Batasuna e o fascista PNR. O Batasuna tinha uma significativa representatividade eleitoral (tal aliás como o seu subproduto, também ilegalizado, ANV, e cuja ilegalização rendeu um município às contas eleitorais do PP com apenas 27 votos!). A lei que o ilegalizou foi criada especificamente para esse efeito, ou seja, anos depois do partido existir. O partido não promove directamente a violência, não pelo menos de forma declarada, limita-se a não condenar a violência da ETA.

No caso do PNR falamos de um partido ilegal muito antes de existir, pois desde 1976 que é proibido formarem-se partidos fascistas em Portugal. Mesmo assim ele formou-se, camuflando o seu fascismo. No entanto a máscara tem vindo a cair, e a sobreposição de militantes seus e dirigentes de grupos violentos, envolvidos no assassinato de pessoas, tráfico de drogas, armas e mulheres, é cada vez mais notória. A sua representatividade eleitoral continua, felizmente, nula. E mesmo assim ninguém, com responsabilidades políticas, ousa defender o óbvio, a aplicação da lei e sua ilegalização. Apesar de ninguém o fazer, os blogs liberais estão sempre à espreita de qualquer sugestão nesse sentido e gritam aqui-del-rei pela "liberdade" ao mais pequeno sinal.

Mas, claro, calados como ratos em relação ao Batasuna.

Vermelhos contra cinzentos: a luta continua

Qual metáfora natural dos tempos políticos de hoje, os esquilos vermelhos (ou esquilos europeus ou ainda eurasiáticos) da Grã-Bretanha estão a ser dizimados pelos seus primos americanos (os cinzentos), introduzidos na ilha no séc. XIX. Vale mesmo a pena ler esta reportagem do The New York Times. Os cinzentos são maiores e mais agressivos, sendo capazes de se instalarem em áreas mais urbanizadas, mas a sua maior arma contra os vermelhos é um vírus que transportam, e ao qual são imunes, mas que mata os vermelhos em pouco tempo.

Em Portugal a situação tem sido inversa. Depois de séculos sem esquilos no país, os vermelhos são hoje comuns em vários locais do Norte graças a repovoamentos bem sucedidos na Galiza - creio que até já ultrapassaram o Douro no seu rumo a Sul. Basta ir aos pinhais à beira-mar de Esposende, p.ex., para comprovar a sua presença, mas com alguma sorte topam-se a cruzar qualquer estrada rural minhota. Mas o futuro é perigoso, a reportagem do NYT refere que também em Itália os cinzentos começam a substituir os vermelhos, e provavelmente os Alpes não serão uma barreira tão fiável quanto o canal da Mancha.

sexta-feira, outubro 05, 2007

Viva a República!

Os bispos vampiros

Às vezes as coisas atingem um grau tal de sem vergonhice que só conseguimos falar delas falando em bom português. As mais recentes filhasdasputices da Igreja católica portuguesa são disso exemplo.

Se não vejamos. Em Fátima clamam horrorizados contra a "universalização do casamento gay" e lamentam que "apenas a Polónia" se lhe oponha com veemência no espaço da UE. Deixam de lado portanto dois pontos: 1) a Polónia também é o único país da UE a não opôr-se à pena de morte (não arrelia nem um pouco?) e 2) a suposta universalização do casamento gay perde a milhas para a universalização da pena de morte para os gays, são 5 países com casório (apenas 3 na UE de 27), contra 9 com pena de morte, isso também não arrelia?

Entretanto prossegue a campanha de mentiras e areia para o ar promovida pela igreja e acariciada por muita gente crédula e analfabeta, na qual se inclui, tragicamente, uma boa parte dos jornalistas da praça. Valha a Fernanda Câncio para desmontar as manhas. Na discussão do novo regime de "assistência religiosa nos hospitais" só uma coisa está em causa: dinheiro, dinheiro e mais dinheiro. E a poeira e mentiras são lançadas com tanta insistência não só por ser o seu modo natural de estar e ser, mas também para esquecer o facto de que mesmo que a lei seja aprovada, continuará a ir demasiado dinheiro do estado para os bolsos da padralhada que fareja a morte nos hospitais. Escabroso. Asqueroso. Nojento. Vil. E depois as putas são as outras.

The Tudors


Em dia de celebrar a República, uma boa notícia king-related. The Tudors vai finalmente estrear na RTP - que ao menos vai servindo para passar as melhores séries estrangeiras. É já na terça-feira, em dose dupla, às 22h20. No Reino Unido estreia hoje na BBC2 às 21h. É da mesma produtora do Weeds (e também do L Word), pelo que poderá ser um bom antídoto para quem ainda está de ressaca pelo fim da segunda temporada da Erva da Nancy Botwin. No Guardian garantem que é a primeira série de época a valer mesmo a pena e a marcar uma o começo de uma nova era para o formato. A não perder portanto, como se faltassem argumentos, olhem bem pró moçoilo que faz de Henrique 8º - "doentiamente bom" é a expressão apropriada.

PS: Afinal pode-se perder que não se perde grande coisa. Que fiasco...

RTP: aputalhando a República no seu aniversário

Sabem aquela fulana que aparece sempre muito espampanante nos telejornais da RTP, com felpudos cachecóis rosa choque e coisas que tais (acho que só ainda não a vi vestida de sevilhana, mas já faltou mais), a anunciar o nascimento de mais um fedelho real ou outras coisas igualmente superimportantes do país vizinho?

Pois é, hoje lá apareceu de novo. Pelo que percebi (não vi a peça desde o início) a notícia seria sobre as detenções de jovens espanhóis por queimarem a foto do monarca vigente. Moral da estória (sim, quando em vez de notícias se fabricam estórias, há uma moral no fim) "a monarquia espanhola custa 19 cêntimos a cada espanhol, enquanto a república custa 1 euro a cada português". Assim à queima-roupa e para finalizar, ponto parágrafo e passemos à próxima estória da carochinha.

Fiquei assim sem saber onde tinha Rosa Veloso ido buscar tão belos números, se atirou uma moeda ou ar ou consultou algum panfleto do PPM. Também não sei portanto se tal inclui as isenções fiscais sobre o imenso património da família real espanhola ou leva em consideração o facto da presidência portuguesa ser eleita e, apesar de tudo, não ser só para a fotografia. Não sei e provavelmente ficarei sem saber. Tal como não faço ideia do porquê das detenções no Batasuna não terem merecido igualmente uma reportagem. Pois afinal, o orçamento da RTP fica-nos bem mais caro que o da presidência, e mesmo assim parece só nos dá direito a assistir a estórias mal contadas e pior vestidas.

República da Bicharada

Pelos vistos a 4 de Outubro celebra-se o dia mundial dos animais. Tão simpático quanto irrelevante, parece-me. Mas uma boa desculpa para promover certos eventos. Como os listados num panfletinho verde que recebi hoje, a celebrar não ontem, dia 4, mas hoje, dia 5, na cidade da Trofa. Os eventos, com apoio da câmara (PSD), terão o seu ponto alto, deduzo eu, no "Tributo ao cão" a celebrar (rezar? benzer? ajoelhar perante?) às 18h.

Lembram-se daquela ideia do grupo parlamentar do PSD em oficializar um Dia Nacional do Cão convenientemente próximo do Dia Mundial da Criança? Foi morta à nascença, restou-lhes por isso a Trofa e o dia da República para canilizarem à vontade.

Para compensar tão sentidas homenagens aos nossos amiguinhos de quatro patas em pleno dia da República, a RTP vinga-se e escolhe antes uma tourada para celebrar a primeira hora de emissão neste dia 5. Adequadíssimo tudo.

quarta-feira, outubro 03, 2007

É do gerúndio a culpa de ninguém estar fazendo nada

Quem o garante é o governador de Brasília, que está tratando de bani-lo, a ver se as coisas começam melhorando... Mas olhando para Portugal, onde se vai usando menos, eu diria, dizendo, que não é indo por aí não... [via]

Ver na Wikipédia: Gerundismo.

Tendência Peculiar: os nomes das empresas na hora

Algumas das explicações para a situação económica portuguesa talvez estejam nesta lista das empresas criadas pelos balcões "Empresa na hora". De "Sonhos Tresmalhados" a "Acordes Excêntricos", de "Ano Resplandecente" a "Apogeu dos Deuses", de "Certamente Feliz" a "Conjunto de Sombras", assim vai o mais recente tecido empresarial do país. "Chiques de riso", ficareis ao ler. [via]