segunda-feira, novembro 30, 2009

Sporting não rima com bom marketing

Tem sido alvo de muitas piadinhas pelo Twitter fora a queixa por discriminação da campanha de descontos para os bilhetes anuais do Sporting, "Gamebox Duo". A campanha dirigida a casais de sócios, exclui casais de pessoas do mesmo sexo. Claro que o assunto é secundário, mas a discriminação está lá, e ainda bem que há quem se queixe. O Sporting podia facilmente ter corrigido a situação, mostrando abertura, mas optou pela estratégia "pior a emenda que o soneto":
«O departamento de marketing do clube refuta qualquer tipo de discriminação sexual e justifica a campanha da "Gamebox Duo" como uma iniciativa que se "destina a trazer mais mulheres ao estádio".»
Então o objetivo é trazer mais mulheres para o estádio e lançam uma campanha dirigida a casais!? Serei só eu a ver o erro desta equação? Se o Sporting queria mais mulheres no estádio fazia uma campanha dirigida às mesmas, p.ex. "traga uma amiga". Ao dirigir-se apenas aos casais heterossexuais, deixa de fora mulheres solteiras, e antagoniza os casais homossexuais. No fim, nem traz tantas mulheres quantas poderia trazer, e fica com a imagem lesada junto de gays e lésbicas. A isto se chama uma péssima campanha de marketing.

domingo, outubro 25, 2009

Um debate que se desejaria sóbrio, a bem de todos

Está a chegar a hora em que o casamento entre pessoas do mesmo sexo será legalizado em Portugal. Já pouco falta, é uma inevitabilidade. O grande debate, a grande discussão sobre o assunto, já foi ganha. Todos sabem que qualquer outra solução visaria apenas manter alguma discriminação, ao menos simbólica, qualquer outra solução seria uma solução contra a igualdade. O debate já foi ganho.

Portugal nem sequer poderá arrogar-se grande pioneirismo, o casamento é uma realidade com quase 10 anos na Holanda e quase 5 na vizinha Espanha, além de estar presente também na Bélgica, Canadá, África do Sul, Noruega, Suécia e em alguns estados dos Estados Unidos. Para breve também está anunciada a sua legalização no Luxemburgo, Islândia e Nepal. Sim, Nepal. O casamento entre pessoas do mesmo sexo já nem sequer é uma realidade exclusiva do direito civil, com o recente reconhecimento por parte da Igreja da Suécia.

Agora falta apenas que o Partido Socialista, o PCP, o PEV e o Bloco de Esquerda, cumpram no parlamento as suas promessas eleitorais. Para isso foram mandatados pelos eleitores no passado dia 27 de Setembro.

Face a tudo isto, recomendar-se-ia aos opositores do casamento entre pessoas do mesmo sexo alguma contenção e prudência. Naturalmente não lhes peço que se calem, mas que tenham noção da realidade e mantenham uma postura sóbria.

Achará realmente a igreja católica portuguesa que terá algo a ganhar em ir para a rua gritar, como fez a homóloga espanhola? Acentuando clivagens, afastando muitos crentes, e para no fim obter o mesmo resultado no parlamento? À igreja é especialmente fácil sair desta discussão sem mancha de escândalo e sem recuar um milímetro na sua posição. Afinal a igreja nunca reconheceu como válido o casamento civil, e apenas isso teria que lembrar ao dizer que se opõe, mas desvaloriza a alteração que este sofrerá.

Com esta postura ganharia a igreja, que se pouparia a escusados danos de imagem, e ganharia o país, capaz de decidir um assunto sem histeria, sem dramatismo escusado, sem discursos do fim do mundo.

No entanto sinais surgem de que há muita gente interessada em fazer-se notar por isso mesmo, dramatismo histérico, homofobia militante e pesadelos do fim do mundo:
«"As pessoas que votaram sabiam a posição dos partidos. Agora quero é saber o que pensam os juristas sobre o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo", desafia D. Januário Torgal Ferreira, bispo das Forças Armadas.»
Januário Ferreira reconhece então a clareza dos resultados eleitorais, mas mantém a esperança de que por vias travessas possa travar a medida. Difícil imaginar como, num dos poucos países que proíbe a discriminação com base na orientação sexual na sua própria constituição.
«O grupo dos militantes socialistas católicos quer promover um referendo sobre o casamento homossexual se a proposta do PS passar na Assembleia da República e propõe-se participar na recolha de 75 mil assinaturas para o conseguir. (...)

Nesta matéria, consideram que o PS está «ideologicamente baralhado» e a seguir o BE e lamentam que «defina como prioritário o casamento homossexual» quando se vive «numa altura de crise social» em vez de se concentrar «no combate à pobreza e ao desemprego».
E a insanidade desperta. Nunca ninguém ouviu falar nesta "tendência" do PS durante a campanha eleitoral, caladinhos que estavam nas suas discretas posições nas listas. Podiam ter-se insurgido contra a promessa de Sócrates (de Janeiro), contra o programa eleitoral do PS que foi às urnas, mas não, só agora se ouve falar de Cláudio Anaia e seus comparsas. Que acham que há prioridades mais altas, assuntos mais prementes onde concentrar energias, mas simultaneamente estão dispostos a ir para as ruas recolher assinaturas, para depois gastar milhões e tempo num referendo - uma ferramenta tão mal amada pelo eleitorado português, onde nunca se obteve sequer 50% de participação. Tudo isso para travar algo que pode ser resolvido numa tarde no parlamento, para contentamento de muitos e sem dano para ninguém. (Quanto à conversa das prioridades ler também este texto de Fernanda Câncio.)
«Cerca de 40 representantes de movimento e associações de todo o país estiveram ontem reunidos em Lisboa com o casamento de homossexuais em agenda.»
O ódio é mesmo capaz de mover multidões. Pessoas que não querem casar com alguém do mesmo sexo movem-se de todo o país até Lisboa, para se encontrarem com outros de mesmo opinião, e juntos tentarem impedir aqueles que efetivamente querem casar com alguém do mesmo sexo, de o fazerem. Pobre e triste viver este.

Sim os tempos são de crise, por isso mesmo é importante que agora, mais que nunca, as pessoas se unam em torno de objetivos positivos e construtivos. O casamento entre pessoas do mesmo sexo se algum impacto económico tem, é certamente positivo, desde o benefício óbvio de todos os agentes económicos ligados à celebração de casamentos, à maior segurança económica de que gozarão os novos casais. Mas há sobretudo um enorme impacto moralizador para uma camada da população que vê finalmente reconhecida a validade e legitimidade das suas relações amorosas. Uma vez legalizado o casamento entre pessoas do mesmo sexo, uma série de novas possibilidades de vida se abre para uma parte significativa da população, sem prejuízo de ninguém. E se uma parte de nós passa a ter novos caminhos para a felicidade, todos nós ganhamos com isso.

Os opositores têm mesmo a certeza que querem vincar o seu lugar no lado errado da história? Sejam homofóbicos à vontade, mas mantenham um mínimo de estilo e elegância, só têm a ganhar com isso.

sexta-feira, julho 31, 2009

O princípio da mediocridade em Gabriel Olim

Nota prévia: nunca percebi muito bem o tempo que as associações LGBT perdem com a questão do sangue, a meu ver um dos tópicos mais irrelevantes no campo das discriminações. E se a UNICEF deixasse de aceitar dádivas monetárias dos gays? Seria assim tão mau para as nossas existências? Má seria uma discriminação na hora em que precisamos de uma transfusão de sangue. Mas o pior não é isso, o pior é que esta discussão é terreno minado, de onde em geral só se sacam frutos mediáticos enevenenados. Prova disso mesmo a mais recente entrevista do madeirense Gabriel Olim, presidente do Instituto Português do Sangue.

(Já sei, não é nada politicamente correcto salientar que o homem é madeirense, sendo isso - será? - irrelevante para o caso. Mas é o próprio que diz que se dane o politicamente correcto, so what?)

Se dúvidas houvesse de que falamos de alguém intelectualmente muito limitado quando falamos do sr. Olim elas esfumam-se nesta entrevista. Não é preciso ir mais longe que a primeira resposta: «De tal modo que os ingleses publicaram em Março uma resolução para poderem perguntar explicitamente aos possíveis dadores se tiveram sexo anal ou oral com outro homem. E não é por terem nada contra os gays.» Aqui fica claro que 1) O sr. Olim ainda não se apercebeu que há uma diferença entre se ser gay e ter-se sexo desprotegido com homens. E 2) o sr. Olim ainda não percebeu que é exactamente um questionário à inglesa aquilo que as associações LGBT reivindicam para Portugal.

A entrevista prossegue no mesmo tom confuso e desorientado, sendo múltiplas as passagens onde Olim insiste no erro de confundir homossexualidade com comportamentos de risco, e de continuar a não perceber que é essa a sua gaffe. A coisa vai ao ponto de achar uma provocação alguém assumir-se como gay e querer dar sangue, e, simultaneamente, achar que se devem processar os homossexuais que dão sangue sem se identificarem como homossexuais. Confusos? Certamente não mais que Olim.

O pior é que há gente que lê isto e encontra nexo na confusão do senhor doutor, afinal um senhor doutor, pelo que saberá do que fala. E mais uma vez temos a associação da homossexualidade ao HIV, à promiscuidade e ao desinteresse pela saúde pública. Enfim, o caldo homofóbico continua quente.

Quente o suficiente para que, p.ex., todos aqueles homens casados que não se identificam como gays, aos outros ou a si próprios, mas que têm sexo extraconjugal (e possivelmente desprotegido) com outros homens, continuem a usar a dádiva de sangue como método de testar o HIV discretamente. Sem a mariquice de ir a um CAD.

Também faz com que muitos homossexuais saudáveis e que não praticam comportamentos de risco não queiram dar sangue, porque já perceberam que há o risco de lá chegarem e serem maltratados por um idiota qualquer. Perdendo-se boas dádivas.

Pela minha experiência de ex-dador não é isso que acontece. Nunca me foi perguntado se era ou não gay. Perguntaram-me, isso sim e à inglesa, se tive sexo anal ou oral desprotegido. Porque é isso que interessa. Só mais tarde soube, na imprensa, que haveria uma proibição de homossexuais darem sangue, e foi aí que deixei de dar.

Aparentemente o idiota-mor está afinal na presidência do IPS. Algo que vem na linha do que publicava a Spiegel há poucos dias: «Nas organizações globais, a mediocridade é o caminho para o topo». Isto a propósito de Durão Barroso, mas que parece assentar como uma luva no sr. Olim. Afinal onde é que prefeririam encontrar este homem, atrás de uma secretária ou numa urgência hospitalar?

sexta-feira, maio 29, 2009

Europride Zurique 2009


Site oficial: www.europride09.eu

Não é a Eurovisão, mas parece

Sorriso pepsodent, eis algo mais a unir a extrema-direita austríaca ao CDS.

A União Europeia. Quem o garante é a dupla maravilha do CDS, Melo e Portas, eles próprios com mais perfil para candidatos eurovisivos que europeus. O plágio dos candidatos da extrema-direita austríaca é óbvio, e também muito típico da Eurovisão. Já a referência a Israel deve ser para deixar bem claro que os judeus nem precisam bater à porta para levarem com ela na cara...


Finalmente a canção candidata pelo FPO. O CDS está à espera do quê?

PS: O rap não era música de pretos?

Igreja espanhola começa campanha pela legalização do abuso sexual

A coisa começou com o cardeal Antonio Cañizares Llovera, arcebispo de Toledo e prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, a considerar irrelevantes os abusos a que milhares de crianças foram sujeitas em orfanatos católicos irlandeses face às interrupções voluntárias. E ficou completamente óbvia e assumida com o artigo do redator chefe da revista da arquidiocese de Madrid, presidida pelo cardeal Antonio María Rouco Varela:
«Reducido el sexo a simple entretenimiento, ¿qué sentido tiene mantener la violación en el Código Penal?". (...) ¿No debería equipararse a otras formas de agresión, como si, por ejemplo, obligáramos a alguien a divertirse durante unos minutos? ¿Por qué tanta disparidad en las condenas? (...) Cuando se banaliza el sexo, se disocia de la procreación y se desvincula del matrimonio, deja de tener sentido la consideración de la violación como delito penal.»
Vai-se perdendo a vergonha. Pode ser este o impulso necessário a que as vítimas dos orfanatos católicos espanhóis (ou alguém acredita que escasseiem?) comecem finalmente as denúncias.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Provavelmente não há vergonha

São 6000€ a pagar. A campanha nos autocarros foi possível graças ao Bus Slogan Generator, inspirado pela campanha publicitária com maior impacto dos últimos tempos, a do @AtheistBus claro. Falando nisso, geniais os slogans propostos para a expansão brasileira da dita.

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Jóhanna Sigurðardóttir, futura Primeira Ministra da Islândia

Jóhanna Sigurðardóttir deverá tornar-se amanhã na primeira chefe de governo publicamente homossexual, no mesmo país que elegeu democraticamente pela primeira vez uma mulher como chefe de estado, Vigdís Finnbogadóttir. Um sinal muito positivo para políticos como Klaus Wowereit ou Bertrand Delanoë, respetivamente autarcas de Berlim e Paris, e com ambições políticas semelhantes nos seus países.

Obviamente Jóhanna não foi escolhida por ser lésbica, obviamente não é isso o que interessa para o desempenho das suas funções. O que interessa neste facto é precisamente ele já não interessar na hora de escolher o PM na Islândia. É essa a notícia.

Atente-se aos comentários da notícia no Público e perceber-se-á rapidamente o quão importante é esta notícia ser dada num país como o nosso, e quantas décadas teremos ainda pela frente para que uma notícia assim sobre Portugal seja publicada no estrangeiro.

PS: Por falar em influentes lésbicas nórdicas, veja-se também a lista das 10 lésbicas mais influentes da Noruega. A Noruega tem menos de metade da população portuguesa. Haveria algum nome na nossa lista além de Solange F.?

Desde a 2.ª Guerra que não víamos o Vaticano tão nazi-friendly

Bento 16 anulou a excomunhão do "arcebispo" Richard Williamson, negacionista do Holocausto, provocando ondas de alegria e satisfação entre a extrema-direita alemã. Este negacionismo, crime na Alemanha e outros países europeus, não é coisa velha e arrependida, é tão recente que só em Janeiro foi para o ar na TV sueca.

Para que não haja dúvidas quanto à natureza da pandilha lefebvriana, que agora teve direito a este passar de mão de Bento 16, "don" Floriano Abrahamowicz disse à Tribuna de Treviso que tanto quanto sabe as câmaras de gás dos campos de concentração nazi eram apenas para desinfestação.

Que Bento 16 esteja de bem com esta gente e a provocar orgasmos aos líderes neo-nazis europeus não poderá causar grande surpresa. Basta pensar no seu próprio passado de jovem hitleriano, e sobretudo na forma como lidou com isso no presente, para nos lembrarmos que o negacionismo é toda uma filosofia de vida entre o clero católico: não houve holocausto, não fui um jovem hitleriano, não há pedofilia na igreja etc etc etc...

Não, entre estas notícias o que choca é a reação dos católicos. Ou melhor, a não reação dos católicos, a absoluta indiferença dos católicos a todos estes crimes. Praticamente não há cobertura mediática do caso em Portugal. E mesmo a nível internacional só os líderes judeus reagiram.

Mau timming para eles, perfeito para Bento 16. Com a Europa a brincar de "muito sensível e solidária com os povos oprimidos" - desde que oprimidos por judeus, todos os outros, azar - o antisemitismo sobe em flecha. E que as sotainas se reaproximem dos ideiais nazis choca muito poucos.

Déjà vu.

Assustador.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

No meio da missa, uma breve referência ateia

Via @AtheistBus, um dos melhores twitters do mercado.

terça-feira, janeiro 13, 2009

Depois do desaire californiano, esperança no Maine


Mais info aqui, a seguir atentamente aqui e tuítando aqui.

Onde é que está o botão de parar de ver isto?


Via Queerty, graças à sua regra para "rapazes a dançar em cuecas". Até já esqueci a caralhada anterior..

quarta-feira, dezembro 24, 2008

É natal, branqueie-se o ódio

O dossier de hoje do Público sobre o discurso de ódio de Bento 16 contra os homossexuais não é mais que um branqueamento do dito ódio. O tom com que foi escrito tenta passar a imagem de um Bento 16 teórico inofensivo versus agressivos activistas homossexuais. Os mesmos que afinal não tiveram direito a opinar no jornal, que reproduz o discurso do papa, publica o artigo de um padre que tudo subscreve e ainda um outro que acusa os activistas gays de quererem limitar a liberdade de expressão papal. Os tais activistas que nada puderam dizer nas páginas do jornal, pelos vistos compete-lhes apenas calarem enquanto são insultados.

O branqueamento feito pelo Público vai ao ponto de publicar esta delirante frase: «Na semana passada, o Vaticano pediu a todos os Estados que eliminassem as penas criminais contra os homossexuais.» - ocultando que o Vaticano votou contra e instigou ao voto contra do documento discutido na ONU que pretendia isto mesmo.

Mas nem todo este branqueamento consegue esconder a evidência de que é esta lógica da "ordem natural" que está por trás de crimes como este.

Que B16 e seus compinchas arranjem uma consciência em 2009 é o meu voto para este natal.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Twitter killed the blogger star

Recebi algumas queixas pelo semi-abandono do blogger pelo twitter, mas a verdade é que cada vez a troca me parece melhor. Isto porque nos tempos que correm me falta o tempo e o vagar para me pôr com grandes prosas, o post anterior é a excepção à regra, e o twitter é perfeito para a boca curta ou a partilha de um link. Usando a extensão twitterfox para o firefox a experência twitter torna-se muito mais satisfatória. É por exemplo perfeita para quem quer receber as notícias na hora, e nem está muito interessado no twitterismo, já que pode funcionar como aplicação única de alertas noticiosos das mais variadas fontes - como se vê no exemplo da imagem. Também serve para twittar, e todo o seu uso é simples e instintivo. Enfim, foi a primeira que testei e fiquei logo convencido, não comparei com outras. Fica a sugestão.

Para os bloggers resistentes deixo a sugestão de aderirem ao twitterfeed, um site que automaticamente twitta os vossos posts - é o sistema usado pelo JN ou pelo Arrastão p.ex..

Quem quer matar a Razão?

Não sei porque o texto não está assinado, mas seja quem for, escreve para o JN. O jornal achou por bem publicar um artigo ontem, domingo (dia do sr.), intitulado "Quem quer matar Deus?", aspas minhas, que no artigo Deus é factual e seus assassinos também. A meio da prosa encontramos outra bela pergunta: "É possível não acreditar no divino?". Tanta imbecilidade junta fica difícil de digerir e comentar que não com insultos. Mas farei um esforço.

O texto começa por anunciar em tom de alarme que o ateísmo floresce, livros ateus enchem as listas de best-sellers e até os autocarros londrinos transportam mensagens ateístas, e associa isto ao "declínio da religião no Ocidente". Mas acaba por concluir que:
«Em Portugal, embora falte estatística, a proliferação de anúncios de videntes e quejandos é suficiente para perceber que o negócio prospera, autorizando a tese de que vivemos num Mundo onde o irracional é a norma e grande parte da Humanidade crê em Deus, ainda que cada qual o defina a seu modo.
Do mundinho onde vive o autor da prosa não deverá restar qualquer dúvida sobre a total ausência de razão. Mas convirá lembrar ao dito cujo que bruxas, mezinhas e rezinhas são mais velhas que a Sé de Braga, pelo que sem estatística mais vale não atirar a moeda ao ar, por maior que seja a fé no método.

Enfim, um curioso mundinho onde para um ateu ser radical, virulento ou assassino basta-lhe falar publicamente da sua não crença ou querer desligar-se da religião a que pertencia, enquanto que um religioso só amarrando um cinto de explosivos ao corpo merece tais honrarias. Ateus tão radicais, virulentos e assassinos e afinal tão frouxos, queixa-se no último parágrafo:
«Aliás, neste contexto torna-se pertinente a pergunta sugerida por Anselmo Borges: “Porque é que a campanha publicitária dos autocarros londrinos declara que Deus ‘provavelmente’ não existe? Porque não dizer logo que ‘Deus não existe’, se há essa certeza?”. Segundo a BHA, porque o “provavelmente” evita ferir susceptibilidades e violar as leis britânicas da publicidade. Mas a melhor explicação talvez radique, afinal, na advertência formulada na Grécia pelo matemático Euclides, 300 anos antes de Cristo: “O que é afirmado sem provas pode ser refutado sem provas”. »
Anselmo Borges, note-se, foi o expert chamado a explicar este estranho fenómeno de gente que se recusa a acreditar em estórias da carochinha e insiste em usar o cérebro que tem na cabeça. Apesar da BHA explicar a razão da escolha do slogan, o autor da prosa não se dá por satisfeito, e decide que a explicação é afinal outra. Esquece que na Inglaterra persistem medievas leis anti-blasfémia, mas não falha de todo o alvo.

Isto porque para muitos ateus, como eu próprio, a escolha do slogan é efectivamente a mais racional, lei britância à parte. Desde logo levantar uma probabilidade de não existência soa mais "simpático" ao crente, lança a dúvida em vez de partir de imediato para a confrontação. Por outro lado o cepticismo baseia-se na ausência de provas ou meros indícios da existência de deus, é uma não crença, e não uma crença na não-crença como poderia sugerir a formulação proposta. O autor erra portanto quando sugere que competiria aos ateus provar a inexistência de deus, não compete. Os ateus limitam-se a constatar a sua inexistência. Competiria, isso sim, a quem apregoa a sua existência, comprova-la, mas não o fazem, pelo que poderiam - seguindo a lógica de Euclides - ser refutados com igual sustentação. Mas se o ateísmo se distingue da superstição precisamente pelo rigor, honestidade, racionalidade e uso do método científico, fica-lhe muito melhor portanto anunciar ao mundo que Deus provavelmente não existe, pelo que o melhor a fazer é deixar de se preocupar com isso e gozar a sua vida ;)

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Antes assim que casados

Adolescentes iranianos enforcados por "crime de práticas homossexuais".
«O observador permanente do Vaticano na Organização das Nações Unidas (ONU), monsenhor Celestino Migliore, afirmou nesta segunda-feira (1) que a Santa Sé é contrária ao projeto de descriminalização da homossexualidade que será proposto pela França, com o apoio da União Européia. De acordo com Migliore, o projeto fará com que alguns países sejam submetidos a “enorme pressão”. (...) Segundo o enviado do papa Bento 16, no entanto, o projeto que a França vai defender na Assembléia Geral da ONU é uma questão diferente, e que, se for adotado, criará “novas e implacáveis discriminações”. Para Migliore, “os Estados que não reconhecem a união entre pessoas do mesmo sexo como ‘casamento’ serão submetidos a pressões internacionais”.»
Pouco importará ao caso que sejam mais de 80 os países onde a homossexualidade é criminalizada (em 9 dos quais com a pena de morte) e que apenas 6 reconheçam o casamento civil entre pessoas do mesmo (sendo que entre eles não se encontra sequer a França, promotora do documento). O ódio, a paranóia e a maldade dos membros desta seita nunca conheceram limites...

Actualização: Até o insuspeito La Stampa considera grotesca a motivação da igreja em colocar-se ao lado de países como o Irão ou a Arábia Saudita, contra uma proposta que recolhe unanimidade na União Europeia. Como lembra Michael Jones, o mau gosto ou requinte de crueldade da igreja vai ao ponto de ter apresentado estas declarações no dia mundial de luta contra a sida, a tal luta que tem na criminalização da homossexualidade um dos seus maiores inimigos.

terça-feira, novembro 25, 2008

1 grd preguiça pra blogar

Há meses que este bloguito anda em subpostagem, por vários motivos, um dos principais a mais pura e genuína preguiça. O seu suicídio tem vindo continuamente a ser adiado, já que o impulso de partilhar uma notícia, um vídeo ou mandar uma boca foleira mantém-se vivos. Acontece que um blog é provavelmente demasiado para tão breves recados, vai daí decidi experimentar a versão "140 caracteres máx", mais conhecida por Twitter. Não sei bem se a coisa poderá ser ou não um bom substituto, já que foi concebido para algo mais pessoal do que isto, mas nos próximos tempos é isto mesmo que vou tentar, neste endereço: http://twitter.com/bossito Mais sobre o conceito Twitter, que não é nada recente, neste vídeo (legendado em português). Eventualmente o renas poderá sobreviver para os momentos em que a teclagem apeteça, ou terá finalmente o direito a uma morte digna. O futuro o dirá.

PS: Isto do twitter tem muito mais graça usando programinhas associados, como esta excelente extensão para o Firefox.