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segunda-feira, novembro 26, 2007

Patrulhamentos de bits e bombardeios de papel

«Essa patrulha ideológica, vigiando cada distracção, cada frase mal pronunciada, cada piada ou anedota, cada opinião, cada divergência, cada afrontamento, cada violação das regras linguísticas do "politicamente correcto", é que me parece contraproducente.»
Pois, a mim também parece contraproducente. Aliás, a minha discordância em relação à reacção das Panteras Rosa (que não foi a reacção de todo o movimento, e muito menos de todos os gays e lésbicas) estava sobretudo no tom, estilo e importância dada ao caso. Porque eu não coloco em causa que a assimetria existe. O que sei é que essa assimetria deve ser denunciada com mil paninhos quentes e só com casos "óbvios", sendo que muitas vezes nem o sangue "basta" para o serem.

É que à mínima crítica mais exacerbada logo chovem colunas de jornal sobre "patrulhamentos ideológicos" e "faltas de liberdade" - é por isso que são contraproducentes. Não por acaso, a crónica do Francisco José Viegas foi, salvo erro, a primeira impressa sobre o tema. É que o malfadado lobby só tem os blogs ao dispôr do "patrulhamento". Um bocadinho pífio e inofensivo, não? É escusado tanto berreiro hetero, mais valia o orgulho!

PS: Afinal o DN de hoje também traz outra coluna sobre o tema, mas demasiado palerma para ser linkada, embora não para ser impressa no jornal. Contraproducente, sem dúvida.

quinta-feira, novembro 22, 2007

Feminista ou tonta?

Tonta claro. As campanhas da Tagus primam por serem tontas, e mais nada... não vale a pena reflectir muito sobre o que nunca foi reflectido antes.

Uma campanha alegre

Acho que era dos poucos bloggers tugas que ainda não tinha usado o título do Eça, ei-lo, e a propósito, ainda, da campanha da Tagus - nome que, pelo menos entre os activistas gays, de sofá ou não, já ganhou enorme notoriedade nos últimos dias.
"Queremos colocar a marca no radar do consumidor". Com estas palavras, Sérgio Henrique Santos, director de planeamento estratégico da Lowe, justifica o título do manifesto «Assuma a sua heterosexualidade sem vergonha», criado pela agência para a Tagus.

A campanha contará, numa primeira fase, com mupis de divulgação e propõe criar a "primeira comunidade virtual portuguesa para todos homens e mulheres". De acordo com Sérgio Santos, o "Orgulho Hetero", nome desta acção, vem "criar um território de verdades, com uma mensagem mais irreverente", diz, Mesmo assim, descarta totalmente a possibilidade de gerar-se polémica, até porque, como sublinha, "só queremos criar buzz". E explica: "A barreira de qualquer marca é a indiferença e, como estamos a falar de uma que tem um budget baixo em relação a outras marcas de cerveja, temos de criar notoriedade em torno dela". Além de que, prossegue, trata-se tão só de "uma brincadeira, pois não estamos a formular qualquer juízo de valor".

A partir do site, que estará online esta sexta-feira, os internautas terão a oportunidade de fazer amizades, ao mesmo tempo que entram em contacto com a Tagus. A ideia é que a "marca fale com as pessoas e não para as pessoas", pois, "com uma campanha moderna e clean", queremos provar que existem mais do que duas marcas cervejas em Portugal", conclui.

Esta notícia diz tudo, ou quase. Baixo orçamento, mercado dominado pelas super-poderosas Sagres e Super Bock, procure-se então um pouco de "buzz", mas nada de polémicas, que isso é coisa mais pesada, pode correr pior. Ora nada melhor que uma indirecta à gayzada para gerar o tal buzz. E o "buzz" já ferve pela internet. A Tagus agradece.

Qual é o problema? À partida nada de grave, é só um buzz, passa depressa, como o vento. Mas o movimento gay perde assim uma fantástica oportunidade para estar magnanimamente calado, colhendo os frutos mais tarde. Eu explico, e na verdade é tudo muito simples. Aliás, é tudo muitíssimo complicado, mas na era dos buzz e dos soundbites, é forçosamente simplificado.

Sim, quem já trabalhou e participou no Orgulho Gay e nas suas reivindicações tem motivos para se sentir ofendido com esta campanha. Todo o trabalho, suor, privações e provações para o construir são subitamente caricaturados para vender cerveja. Quem perdeu já horas de vida a explicar que o Orgulho Gay não é o "Orgulho em se ser gay", mas o orgulho em ser capaz de dar cara, de vencer os obstáculos, de lutar contra a homofobia, que o Orgulho Gay pode ser o orgulho de qualquer hetero que se junte à luta, fica necessariamente furibundo ao ver surgir uma "causa hetero" promovida pela cerveja, que se resume a um site de engates hetero, igual a milhões de outros sites, embora este claramente mais sujeito a ser dominado por rapazes virgens.

É claro que gritar "sou hetero" numa sociedade onde a heterossexualidade é a hegemonia, é chover no molhado. É que "somos todos hetero" até prova em contrário. A Sagres e a Super Bock nunca usaram a palavra "hetero" na sua publicidade porque não precisaram, porque está lá, sem ser preciso estar. Tal como os reality shows de engate, cenas de um casamento, etc, nunca a usaram. Toda a gente pressupõem que seja para heteros, sendo que muita dessa gente desconhece ainda a palavra.

O "hetero" só passa a fazer sentido a partir do momento em que o "gay" começa a fazer-se notar. Nesse sentido este "Orgulho Hetero" é até um sinal positivo, mostra que há uma brecha na hegemonia. Que o gay já se faz notar ao ponto de haver marcas de cerveja que acham que pôr um bando de rapazes a mandar piropos à empregada do bar já não chega para marcarem a sua heterossexualidade.

É tudo tremendamente vazio de conteúdo, e nada explicitamente homofóbico. Exacto, esta campanha não é explicitamente homofóbica. É sobretudo tonta, e claro, só possível num contexto de muita homofobia ainda enraizada, mas não vincula as mensagens que aqui se quer crer que passam. É por isso que me oponho frontalmente contra essa simplificação e presunção. Porque dessa simplificação facilmente nasce outra, "se o orgulho hetero é homofóbico, então o orgulho gay é heterofóbico". E a maioria das pessoas nunca gastará mais segundos de reflexão sobre o tema que isto.

É óbvio que não existe uma simetria entre uma coisa e outra, entre ser gay e hetero, entre ser discriminado por se ser gay e uma hipotética discriminação por se ser hetero. É por isso que faz sentido um Orgulho Gay e não um Orgulho Hetero. Mas é, ou não, essa simetria o nosso objectivo final? A plena igualdade, o dia em que o Orgulho Gay seja tão desnecessário e tonto quanto este? Ora se esse é o objectivo, não vale a pena criar guerras com uma campanha assente numa falsa simetria, mas falsa apenas porque ainda não real, embora há muito sonhada.

Aquilo que o movimento gay pode e deve exigir à Tagus, é que esta mostre que o seu Orgulho Hetero é tão aberto e inclusivo quanto o nosso Orgulho Gay. Ou seja, a Tagus devia ser convidada a patrocinar e a comparecer nas próximas marchas do Orgulho LGBTA (A de aliados) com o seu carro do Orgulho Hetero. Só depois de recebida a resposta a esse convite, se poderiam tirar, ou não, outras conclusões. Até lá, é tudo na base da precipitação, i.e., do precipício.

Nunca nos esqueçamos. Só as vítimas não gostam de estar no seu papel, mas nunca foi preciso ser vítima para alguém se sentir vitimizado. O Pacheco Pereira chora-se pela "tentativa de silenciamento do seu blog" e chorará sempre, por mais vezes que seja linkado e citado nos jornais. Não ofereçamos à Tagus numa bandeja de prata o papel de "vítima da heterofobia", please. Há coisas tão mais importantes com que nos ocuparmos. Façamos o humor e não a guerra. É uma campanha para heteros, não é? Pois que sejam os heteros a preocupar-se com ela... e a aguentarem goela abaixo o inenarrável sabor de uma Tagus.

PS: Já a Super Bock e a Sagres supostamente são para todos mas só mostram "gajas boas" nas suas publicidades, isso sim é invisibilidade e indiferença.

quarta-feira, novembro 21, 2007

OrgulhoHetero.com em inglês

«The building block of Western civilization has been the Nuclear Family. StraightPride.com staffers, like billions of others living out our 'lifestyle,' believe that family, morals, and pro-creation are the backbone of our well-being.

We are not homophobic.
We do not hate gays.

StraightPride.com IS against gay marriage and civil unions. Why? That is an easy question to answer- the well being of CHILDREN. It is an undisputable fact that the best home for children is an intact, two-parent, married mom (female) and dad (male).

Sexes are not interchangeable. Boys cannot learn how to become healthy men from even the most loving mother (or pair of mothers) alone. And girls cannot learn how to become healthy women from even the most loving father (or pair of fathers) alone. Weakening the family and undermining the values that support it will ultimately destroy our society and dramatically impact religious civil liberties.

Weakening the family harms individuals, and especially children. We should always want and ask for the best for our children - we should never settle. By legalizing same-sex marriages, and/or allowing civil unions, we are saying that these 'same-sex marriages/unions' are the same as man and woman marriages, that they're equal. Well, they're not. It can not be argued that a child brought into a same-sex 'union' will have the same benefit as motherhood and fatherhood. StraightPride.com believes that it is wrong to re-define a marriage and a sacred 5,000-year old institution. Please visit our 'Save America' section - and decide for yourself how best to put a stop to gay marriages and civil unions.

This is Straight Pride dot com»
Ainda bem que nos calhou antes a cervejita das tunas... mesmo.

Os heteros não bebem cerveja, bebem cevada!?

Curiosa a nova campanha publicitária da cerveja Tagus (ver em www.orgulhohetero.com). Tratando-se de uma cerveja foleira e marginal, faz-se assim de uma assentada ao mercado maioritário, dando-se ao luxo de repelir logo à partida os restantes consumidores - no que à orientação sexual diz respeito. Ou talvez não.

A campanha goza e mimetiza o Orgulho Gay e as reivindicações associadas, mas em vez de lutar por direitos civis, visa vender cevada acervejada. É um pau de dois bicos. Se o menosprezo pelos que lutam por uma sociedade igualitária no que concerne às sexuais orientações é evidente e intencional. Também não deixa de, indirectamente, aligeirar e popularizar os termos. Algo benéfico já que a expressão "orgulho gay" sempre soou muito pesada e controversa aos ouvidos do "cidadão comum", incluindo o "cidadão gay comum". E o termo "heterossexual" ainda cria confusão em muitos ouvidos, nomeadamente de heteros.

Espero curioso pelos resultados nas vendas. Não duvido que muitos gays estarão na linha da frente da bebericagem do heterossexual produto. Será uma forma de descarregarem muita homofobia interiorizada acumulada. Por outro lado, também os homofóbicos conscientes aderirão entusiasmados. A minha dúvida está mesmo em relação à atitude do "cidadão heterossexual comum". Desconfio que uma cervejita alternativa que se promove com "orgulhos heteros" lhes soe tremendamente gay.

Mas sobretudo espero que o movimento gay nacional saiba dar a devida importância às coisas, e não sirva de combustível para impulsionar as vendas de tão medíocre produto. É precisamente com isso que estarão a contar os marketeiros da Tagus, que por certo tomam como real a caricatura que fazem do movimento. Não lhes dêem esse gostinho, please.