quinta-feira, janeiro 14, 2010

Visibilidade pouco oportuna

Longe vai o tempo em que se justificava darmos urros de alegria por vermos gays bonitinhos na TV. Felizmente que hoje em dia a visibilidade é crescente, e quando menos se espera apanhamos um personagem gay numa novela enquanto fazemos zapping à espera do noticiário. Tempo, portanto, para sermos mais exigentes com o que vemos.

Isto a propósito da nova campanha da Coordenação Nacional para a infecção VHI/sida, que só agora se lembrou que não era proibido pôr gays nos seus anúncios. Poderia ter escolhido pior timming? É claro que a prevenção do HIV é trabalho de todos os dias, mas quando no país se debate em prime-time o casamento entre pessoas do mesmo sexo isto vem criar uma distração escusada, senão vejamos:



Este spot chama-se "Relações Ocasionais", um tipo engraçado que as mulheres desejam, mas que no final a pretexto de um cafézinho acaba a acordar num carro junto ao mar com outro tipo engraçado ao seu lado. Ok, há tipos para quem a vida, ou ao menos o engate, é fácil (arranjar casa é que é mais difícil). E usam preservativo. Bons tipos, nada a opôr. Next:



Este chama-se "Relações Estáveis", curioso título para uma campanha de promoção do uso do preservativo. Ora então temos um casalinho gay, super sweet, acordam, vão trabalhar, um para o escritório o outro para a lavandaria, e eis que no supermercado faz a compra mágica, preservativos! Exultemos! Ou não. Quando foi a última vez em que se viu um anúncio da CNIVIH a recomendar o uso de preservativo para casais hetero estáveis!? Uma das vantagens das relações estáveis é que dispensam o uso de preservativo. Em havendo monogamia, amor e confiança o preservativo é dispensável, é um prémio pela fidelidade.

Eu não quero ser mauzinho ou negativo, mas a mensagem que vejo nestes anúncios é "nunca confies totalmente no teu parceiro gay, porque como bem sabes - ver anúncio do cafézinho - no fundo são todos uns valdevinos". Ora esto tipo de mensagem no meio da discussão casamenteira é tudo o que não precisamos. Mais uma vez a CNIVIH a atirar ao lado, buuuuuu.

PS: Já agora, quem teve a brilhante ideia de mudar o nome da Comissão Nacional de Luta contra a sida para Coordenação Nacional para a infecção VIH/sida!? Para a infecção!?

7 comentários:

anabananasplit disse...

Realmente, esse segundo vídeo anula logo a mensagem que pretende transmitir.

A única razão para um casal estável e com uma relação exclusiva usar preservativo seria para contracepção, ou então por motivos de higiene, presumo, consoante a variante sexual escolhida ou o contexto da mesma. Associar a prevenção da SIDA a isso só pode mesmo significar "nunca confies no teu parceiro". Ora, como é que se pode ter uma relação com alguém em quem não se confia?...

Luis disse...

Estou plenamente de acordo e gostaria que visasses a minha opinião sobre isto publicada no gayfield.blogspot.com
Um abraço,

Três. disse...

Valdevinos é a minha nova palavra preferida. Eu adoro-te. (:

Bruno disse...

Pode ser que o Francisco seja soro-positivo e o Pedro negativo. Assim, o preservativo tem que fazer parte de suas rotinas.

Maria Helena Santos disse...

Eu também pensei o mesmo! E acho q, mais uma vez, a campanha devia ser dirigida a todos/as e n a um grupo específico! Talvez criar vários pequenos anúncios dirigidos a heterossexuais e a homossexuais, homens e mulheres, jovens e idosos/as... etc, mas enfim! Por vezes questiono-me se estas coisas acontecem por acaso!?

poor guy fashion victim disse...

concordo com quase tudo, no entanto como referes "a prevenção do HIV é trabalho de todos os dias" logo não se pode criticar a falta de trabalho da Comissão, que tem sido clamorosa para não dizer um verdadeiro filme de terror" e ao mesmo tempo achar que "agora não era boa altura"

Igualmente discordo em absoluto dos comentários que fazes ao segundo Spot. A fidelidade não é rigorosamente forma nenhuma de prevenção, aliás existe a ideia errada, que desde que as pessoas se encontrem numa relação estável (e há estudos sobre isso) se encontram protegidas. Ora a tua a ideia estaria certa, se ambas as partes se testassem antes de iniciarem essa relação e ao longo de toda essa relação mantivessem uma relação monogâmica. Para além deste aspecto, muitas pessoas têm sucessivas relações estáveis monogâmicas, estáveis enquanto duram, e nas quais Têm a percepção, que se encontram obviamente protegidas e, isto é válido quer para gays quer para heteros.No entanto a realidade tem outras variantes que não encaixam numa definição única do que é fidelidade. Um dos piores anúncios que a Comissão já vez, foi o cartaz do campo de malmequeres brancos com um malmequer roxo que terminava com a pérola de slogan, que dizia mais ou menos isto, "se não consegue ser fiel, que seja pelo menos fiel á vida". Ora o que é fidelidade?
Acho que não se pode ir por aí, quando se fala em prevenção. Um casal tem 3 relações consecutivas, monogâmicas, cada uma com uma média de 14 meses de duração, nunca se testaram, nunca usaram preservativo. Em rigor todas as suas relações foram não protegidas.

Para além de tudo isto, usar ou não preservativo, é uma tomada de decisão. Uma tomada decisão enquanto processo psicológico é tudo menos racional seja em que contexto for. Bota contexto afectivo numa tomada de decisão e vais ver como ela fica.

O que a comissão deveria ter feito era não só estes spots, mas spots para: homens casados que têm sexo fora do casamento com homens, Homens casados/mulheres que têm esporadicamente sexo fora do casamento, casais de namorados hetero que nunca se testaram, ou seja, spots que atingissem o núcleo central do que é a prevenção.

João Martins disse...

Infelizmente os casos de contágio dentro de relações ditas estáveis é bastante comum.
A confiança não tem nada a ver com o usar ou não usar preservativo, até porque o contágio não é unicamente sexual e o desconhecimento que se possui o HIV pode provocar o contagio.