quarta-feira, agosto 22, 2007

E ainda dizem que o milho-rei é vermelho

«Para Pacheco Pereira parece não fazer qualquer diferença: um negro, uma maçaroca de milho...»
Se calhar até faz. Veja-se a quantidade de posts que JPP e restante blogosfera de direita tem dedicado a 2% de um milheiral transgénico no Algarve. Compare-se por exemplo com a indignação que essa mesma gente demonstrou aquando do assassinato da Gisberta. Alguém se lembra de post algum? O crime foi também praticado por jovens, houve "comunicados" anteriores (tinham raps onde prometiam "varrer os paneleiros das ruas" (sic), e tinham igualmente um background político - afinal viviam todos num orfanato gerido pela igreja católica. A grande diferença entre os dois casos é que a vítima do primeiro não era uma espiga de milho, e a tortura a que foi sujeita não durou uma só tarde.

Mas não são só os blogs. Seria extremamente interessante e revelador contar o número de notícias saídas nos últimos dias sobre os estragos num campo de milho (avaliados em cerca de 3000 euros), com as publicadas em 2006 sobre o assassinato da Gisberta. Só num país em que o grosso da imprensa é controlada pela direita e alimentada por estagiários semi-analfabetos é que um campo de milho pode merecer uma entrevista ao presidente da república, sem que na mesma semana se lhe pergunte sobre as centenas de milhar de euros recebidos ilegalmente pelo seu partido da mão de construtores civis ou sem que alguma vez lhe tenham perguntado sobre o assassinato e tortura da Gisberta.

É que isto da ideologia política consistir na defesa dos privilégios dos ricos e poderosos, torna difícil o recurso ao sempre eficaz discurso da vitimização. Pelo que uma espiga de milho esmagada por um qualquer francês pedrado de férias no Algarve, e que se diga de esquerda, se torna irremediavelmente num valioso e raríssimo mártir da direita portuguesa. Definitivamente, para a direita, uma maçaroca de milho vale muito mais que um preto e uma transsexual juntos e ensanguentados.

10 comentários:

Siona disse...

E o tão mal como o PP se deve ter sentido, por não poder usar o assassinato da Gisberta como motivo para mandar adolescentes para a cadeia... isso implicava dar destaque ao caso, não podia ser.

Pobre Paulo Portas, que desilusão política.

luispedro disse...

Falta de memória ou distorção dos factos?

Veja os registos no google; de blogs e de jornais. O caso de Gisberta deu muito que falar, mesmo muito.

(mais do que tinham dado outros casos de assassinatos por parte de menores. Felizmente, é raro, mas não foi a primeira vez que aconteceu.)

luispedro

Siona disse...

Luis Pedro: umas maçarocas desenraizadas tiveram mais notícias que um ser humano torturado e assassinado, há um desnível pouco digno.

E a direita falou tanto, tanto, da Gisberta... ou falou de todo?

luispedro disse...

Falou.

luispedro

boss disse...

Lemos jornais diferentes luís, é a única explicação.. é que o único título que me parece ter dado mais destaque à Gisberta do que agora ao milho, é o JN. E quanto aos blogs direita.. um bocadinho de por favor.

Note-se que apenas embarquei nesta comparação por causa dos "brilhantes" posts de JPP, onde compara skinheads cadastrados por homicídio com eco-grunhos, mas não é assunto que me interesse aprofundar. Fique com a bicicleta e mais esses misteriosos links de blogs de direita.

rosa que fuma disse...

diabos o levem boss se afinal não manifesta uma razoavel freakofobia, em tanto semelhante ás dos LGBT's que não acreditam no activismo e desdenham todos os que se metem em marchas e campanhas "contraproducentes" que "não levam a lado ninhum". Eles estão "numa fase", são filhinhos do papá, estrangeiros de férias, e é claro, tem uma escolha bacoca e unfashion para drogas. Sinceramente parece que levaste com os pés dum qualquer jovem bruce la bruce inconsciente. É verdade que a Maioria dos freaks são sexualmente atávicos e até meio patriarcais, ESPECIALMENTE em portugal, mas em termos políticos, anti individualistas (handicap) errando e experimentando EM esquerda.
Porra para ti, que te caiam os PREconceitos, e cumprimentos.

boss disse...

rosa eu espero bem que os meus preconceitos estejam correctos neste caso, porque se acreditasse que alguém tivesse gasto 2 segundos a pensar no caso e mesmo assim concluiu que era boa ideia avançar... deixaria de acreditar na humanidade, e acho que ainda sou muito novo para isso. Prefiro portanto acreditar no preconceito, na ideia que foi a ganza que falou mais alto, e dessa forma acreditar na inteligência da espécie ;)

boss disse...

Naturalmente a comparação que faz entre marchas e invasões de campos de milho não tem ponta por onde se lhe pegue, é a diferença entre um acto pacífico e um acto de destruição, nem é preciso ir ao código penal para se ver o quão incomparáveis são.

rosa que fuma disse...

zut, tava a falar da ATITUDE (não a minha, que eu nao costumo faltar). A atitude do ...isso é inconsequente, dá nas vistas, mal pensado, faz pior que melhor, á alternativa de? ficar quietinho á espera que alguém, realmente culto, capaz e inteligente, me diga o que fazer.... Porra, é preciso arriscar, e nem sempre se pode ou consegue pensar em termos de público Geral, ou seja, fora da lógica partilhada pelos mais próximos (estou a imbirrar pelos teus comentários acerca dos ganzados de 25 de abril. A ligação esquerda não partidária e LGBT em portugal é duma intolerancia multipla, apenas colmatada pelas panteras.... anyway, se percebes onde quero chegar)

rosa que fuma disse...

mutua. não multipla, mutua. Resumindo, dou na cabeça aos 2 lados, sempre que se propicia.