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domingo, fevereiro 24, 2008

A Gisberta foi assassinada há 2 anos

«Entretanto, Lino Maia, no topo da hierarquia das Oficinas, provou-nos que é um cidadão tão notável que até ganha prémios, como este [Prémio Rádio Clube/jornal Metro]: é o "Cidadão Anónimo" das "Personalidades que marcaram 2007". Descobriu-se que os jovens ao encargo da instituição eram mantidos em condições de higiene execráveis - lençóis sujos de urina ficavam no lugar dias e dias - os monitores roubavam os presentes que os familiares traziam às horas de visita, e as agressões - de funcionários a jovens, e dos jovens a outros jovens - eram o prato do dia num restaurante com ementas previsíveis, fiscalizado e aprovado não pela ASAE, mas pelos próprios cozinheiros. E Maia a isto negou, ou desvalorizou. Os pratos ou só pontualmente sabiam mal, e até eram globalmente bons, tendo em conta os "utentes" que deles usufruiam. E, para ele, funcionário da Igreja Católica, assim que a história atingiu as páginas dos jornais, o homicídio foi culpa de um "pedófilo" que andava a assediar os seus meninos, e cuja "existência" nunca foi mencionada pelas "vítimas".»
Isto e muito mais no FishSpeakers.

quarta-feira, agosto 22, 2007

E ainda dizem que o milho-rei é vermelho

«Para Pacheco Pereira parece não fazer qualquer diferença: um negro, uma maçaroca de milho...»
Se calhar até faz. Veja-se a quantidade de posts que JPP e restante blogosfera de direita tem dedicado a 2% de um milheiral transgénico no Algarve. Compare-se por exemplo com a indignação que essa mesma gente demonstrou aquando do assassinato da Gisberta. Alguém se lembra de post algum? O crime foi também praticado por jovens, houve "comunicados" anteriores (tinham raps onde prometiam "varrer os paneleiros das ruas" (sic), e tinham igualmente um background político - afinal viviam todos num orfanato gerido pela igreja católica. A grande diferença entre os dois casos é que a vítima do primeiro não era uma espiga de milho, e a tortura a que foi sujeita não durou uma só tarde.

Mas não são só os blogs. Seria extremamente interessante e revelador contar o número de notícias saídas nos últimos dias sobre os estragos num campo de milho (avaliados em cerca de 3000 euros), com as publicadas em 2006 sobre o assassinato da Gisberta. Só num país em que o grosso da imprensa é controlada pela direita e alimentada por estagiários semi-analfabetos é que um campo de milho pode merecer uma entrevista ao presidente da república, sem que na mesma semana se lhe pergunte sobre as centenas de milhar de euros recebidos ilegalmente pelo seu partido da mão de construtores civis ou sem que alguma vez lhe tenham perguntado sobre o assassinato e tortura da Gisberta.

É que isto da ideologia política consistir na defesa dos privilégios dos ricos e poderosos, torna difícil o recurso ao sempre eficaz discurso da vitimização. Pelo que uma espiga de milho esmagada por um qualquer francês pedrado de férias no Algarve, e que se diga de esquerda, se torna irremediavelmente num valioso e raríssimo mártir da direita portuguesa. Definitivamente, para a direita, uma maçaroca de milho vale muito mais que um preto e uma transsexual juntos e ensanguentados.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Jogo de Espelhos

Desde a passada sexta-feira que tenho adiado escrever sobre o documentário exibido pela RTP1, "Jogo de Espelhos" de Margarida Metello, sobre Gisberta, o seu assassinato e seus assassinos. Eu gostei muito, sóbrio, completo e capaz de dar a voz a todos os intervenientes e um rosto à vítima. Assim ficamos a saber que não é homicídio segundo a lei portuguesa se o corpo, que julgámos cadáver, ainda estiver vivo no momento de o atirarmos à água, com intenção de oculta-lo e não de mata-lo por afogamento. Isto porque não houve premeditação. Curiosa teoria se confrontada com a letra do rap mostrado no documentário, do grupo "The Gang", em que se prometiam varridelas das ruas, que incluiam a morte de "gunas e paneleiros". Este foi aliás o ponto mais revelador do documentário, eu que segui o caso com relativa atenção, nunca tinha ouvido isto e não imaginava que o grupo fosse organizado ao ponto e ter um nome, "The Gang", e de ter um discurso claramente de extrema-direita.

Este "The Gang" é fruto de um dos muitos orfanatos portugueses, dos quais pouco ou nada sabemos. As descrições do funcionamento da Oficina S. José foram arrepiantes. Milhares de crianças neste país vivem neste tipo de instituições, e é como se vivessem num universo paralelo, pouco se sabe e poucos se interessam. Não sabemos sequer o nome das instituições, só quando alguma tragédia por lá se passa é que os nomes chegam aos jornais e manchetes.

Bom, não há regra sem excepção. A Ajuda de Berço é uma dessas excepções, apesar da pequena dimensão (segundo o site oficial tem apenas 5 quartos), é imbatível no que toca ao mediatismo positivo. E é também a menina dos olhos dos movimentos pelo Não, que sempre a apontam como o seu grande feito (lembro que esta instituição nasceu destes movimentos depois de 1998). A lista de apoios, disponível no seu site, impressiona: RTP, SIC Mulher, Câmara Municipal de Lisboa, Swatch, Jogos Santa Casa, Pingo Doce, Montepio Geral, Banco Espírito Santo, Gelados Olá, Casino Estoril ou Patriarcado de Lisboa, entre vários outros. Sem esquecer, é claro, o Ministério da Segurança Social e do Trabalho.

Uma autêntica máquina de marketing, que conta ainda com uma linha telefónica de valor acrescentado, para donativos, ou venda de bonecos. Contraste absoluto com instituições que albergam muito mais crianças, mas que são completamente desconhecidas pela opinião pública. Mérito, é claro, a quem gere esta instituição. E provavelmente consequência natural de ser fruto de uma campanha política. Que de resto se mantém, no mesmo site encontramos ainda, logo na página principal, uma sugestão radiofónica, a Web Rádio Católica, "a primeira rádio pró-vida em Portugal" (sic).

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Dia de ficar no sofá a ver a RTP

A programação da RTP para esta noite promete. Às 22h45 passam "Jogo de Espelhos", uma reportagem sobre a Gisberta. Às 23h40 "O Principal Suspeito", a segunda parte de um policial protagonizado por Helen Mirren, quem viu ontem a primeira parte não vai querer perder o final. E à 1h35 passa "A Era da Sida", um dos vários documentários e programas especiais que vão passar por estes dias na televisão pública, sobretudo na 2:. Mas ainda há tempo para aproveitar o feriado da restauração da independência e ir fazer umas compritas ao El Corte Inglés.

quarta-feira, setembro 06, 2006

Qualquer dia prendem-nos na cave

«Oficina S. José proíbe rapazes de falar com assistentes sociais»

Nota: Parece-me de louvar a cobertura do Jornal de Notícias a todo o caso Gisberta, desde a primeira hora até às suas "ramificações". Sem dúvida o órgão que mais atenção tem prestado ao assunto.

sábado, setembro 02, 2006

Por falar em Parlamento Europeu

No passado dia 15 de Junho em Estrasburgo, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução sobre a escalada de actos de violência de índole racista e homófoba na Europa. Nesta resolução era feita uma oportuna referência ao assassinato da Gisberta, referência essa introduzida pela eurodeputada socialista Ana Gomes. Até aqui, tudo bem.
«Numa declaração de voto apresentada por escrito, o Vice-Presidente português do Parlamento Europeu, Manuel António dos SANTOS (PSE), explicou que, apesar de considerar muito positivo o essencial do conteúdo da resolução e de achar que é politicamente oportuna, não votou a favor. "As objecções – abstive-me – centram-se exclusivamente na introdução de uma referência a um caso português que, supostamente, indiciaria a existência de uma forte cultura homofóbica em Portugal. O chamado caso Gisberta, ocorrido no Porto, é apenas um acto de delinquência juvenil julgado como tal pela sociedade portuguesa e tratado correctamente pelas autoridades judiciais. Não existe, portanto, qualquer razão para que este caso integre uma resolução deste teor e tanta importância", declarou o deputado.»
Ou seja, boas notícias, não existe "uma forte cultura homofóbica" em Portugal (até porque Viseu fica em Espanha e a Madeira é independente). De tal forma não existente que nem vale a pena o Vice-Presidente português do Parlamento Europeu, eleito pelo Partido Socialista, se ralar com o assunto, ou melhor, o não-assunto. No fundo a justificação dada por dos Santos, para a sua abstenção, apenas se distingue das justificações da extrema-direita polaca, para os seus votos contra, no tom usado, a argumentação e o incómodo são em tudo semelhantes. Já se pensarmos na direita finlandesa, em flexão no post anterior, encontramos um discurso bem diferente. Oiçam o que disse Alexander Stubb no dia 17 de Maio, Dia Internacional de Luta Contra a Homofobia. Ou seja, o eurodeputado português de maior relevo no Parlamento (é Vice!), foi eleito pelo PS, mas nestas coisas de gays e mai' não sei o quê está mais próximo dos fascistas polacos, que dos conservadores finlandeses. E a Gisberta nunca existiu.