sexta-feira, dezembro 08, 2006

Jogo de Espelhos

Desde a passada sexta-feira que tenho adiado escrever sobre o documentário exibido pela RTP1, "Jogo de Espelhos" de Margarida Metello, sobre Gisberta, o seu assassinato e seus assassinos. Eu gostei muito, sóbrio, completo e capaz de dar a voz a todos os intervenientes e um rosto à vítima. Assim ficamos a saber que não é homicídio segundo a lei portuguesa se o corpo, que julgámos cadáver, ainda estiver vivo no momento de o atirarmos à água, com intenção de oculta-lo e não de mata-lo por afogamento. Isto porque não houve premeditação. Curiosa teoria se confrontada com a letra do rap mostrado no documentário, do grupo "The Gang", em que se prometiam varridelas das ruas, que incluiam a morte de "gunas e paneleiros". Este foi aliás o ponto mais revelador do documentário, eu que segui o caso com relativa atenção, nunca tinha ouvido isto e não imaginava que o grupo fosse organizado ao ponto e ter um nome, "The Gang", e de ter um discurso claramente de extrema-direita.

Este "The Gang" é fruto de um dos muitos orfanatos portugueses, dos quais pouco ou nada sabemos. As descrições do funcionamento da Oficina S. José foram arrepiantes. Milhares de crianças neste país vivem neste tipo de instituições, e é como se vivessem num universo paralelo, pouco se sabe e poucos se interessam. Não sabemos sequer o nome das instituições, só quando alguma tragédia por lá se passa é que os nomes chegam aos jornais e manchetes.

Bom, não há regra sem excepção. A Ajuda de Berço é uma dessas excepções, apesar da pequena dimensão (segundo o site oficial tem apenas 5 quartos), é imbatível no que toca ao mediatismo positivo. E é também a menina dos olhos dos movimentos pelo Não, que sempre a apontam como o seu grande feito (lembro que esta instituição nasceu destes movimentos depois de 1998). A lista de apoios, disponível no seu site, impressiona: RTP, SIC Mulher, Câmara Municipal de Lisboa, Swatch, Jogos Santa Casa, Pingo Doce, Montepio Geral, Banco Espírito Santo, Gelados Olá, Casino Estoril ou Patriarcado de Lisboa, entre vários outros. Sem esquecer, é claro, o Ministério da Segurança Social e do Trabalho.

Uma autêntica máquina de marketing, que conta ainda com uma linha telefónica de valor acrescentado, para donativos, ou venda de bonecos. Contraste absoluto com instituições que albergam muito mais crianças, mas que são completamente desconhecidas pela opinião pública. Mérito, é claro, a quem gere esta instituição. E provavelmente consequência natural de ser fruto de uma campanha política. Que de resto se mantém, no mesmo site encontramos ainda, logo na página principal, uma sugestão radiofónica, a Web Rádio Católica, "a primeira rádio pró-vida em Portugal" (sic).

2 comentários:

Catarina disse...

É realmente louvável que o movimento Não tenha conseguido o grande feito de ter uma instituição com 5 enormes quartos...ainda bem que nas suas instalações ainda não se formaram delinquentes, ups, queria dizer crianças inocentes que, sem outra distracção, tivessem de se divertir com outras "coisas".
Toda esta história é absolutamente repugnante, começando pelo quase total descrédito dos meios de comunicação (que só agora, ao fim de tanto tempo, se dispõem a abordar o tema...) e terminando na inércia da justiça que não teve coragem para marcar uma posição!
Veremos em Fevereiro se os portugueses aprenderam alguma coisa com tudo isto e se, finalmente, se deixam de hipocrisias e votam no Sim...

Luís Galego disse...

impressionante esta alegoria portuguesa de 2006....Gilberta, essa coisa, morta ou não morta o que interessa....pessoa de 2.ª classe, qual o problema? QUE NOJO DE PAÍS...QUE REVOLTA A INJUSTIÇA...que dor que sinto por não se ter feito justiça....