segunda-feira, março 24, 2008

De volta ao desacordo

1) Para citar este belíssimo comentário de Rui Zink, deixado numa caixa de comentários tomada de assalto pelo analfabetismo-patrioteiro. Cito com a devida vénia:
«Certo, Angola já não é nossa, mas a língua ainda é. Semos o Pai, nós decidiremos o destino dela. E depois, o Brasil não tem escritores, não tem literatura, enquanto que em cada Portuguez há um Poeta, e um Poeta que nunca deixou a sua língua amada ser contaminada por estrangeirismos foleiros como prime, subprime, franchising, spread 0%, uma língua cujos deputados não dizem atempadamente, cujos economistas não nos convenceram que é errado dizer rentabilidade, cujos cidadãos lêem Camoens no original e onde nem as cartas do CEO da PT vêm com eros ortográficos, porque Eros é um deus brasileiro e lá por eles serem muitos nós semos Portuguezes, temos o copiraict (que escrevemos com c para distinguir de ofsait. Seremos como o Titânico, affundar-nos-emos philosofficamente escrevendo kmo s/pre xkrevemos. Hey men.»
2) Há dias notei com agrado numa notícia de um site brasileiro que por lá se diz "centavo de euro" e não o horroroso "cêntimo". Agora quando a fui procurar para comentar encontrei não uma, mas centenas, incluindo esta da Agência Lusa Brasil:
«Os bares e restaurantes portugueses praticam o preço mais baixo de venda do produto entre os países europeus. Em Portugal, a xícara do expresso custa, em média, 55 centavos de euro (R$ 1,41).»
Quanto tempo será necessário para que o analfabetismo-patrioteiro comece a vomitar que "no Brasil nem sabem dizer cêntimo"? Este exemplo de um melhor uso da língua lá do que cá é especialmente valioso por ilustrar um dos principais factores que contribuiu para a divergência da língua nos dois países: a influência do francês em Portugal. Coisa que começou na altura das invasões, mas que nem por isso indigna estes pseudo-puristas patridiotas. Sobretudo ao nível fonético (que em nada será alterado pelo acordo), com a exagerada consonantização do sotaque das elites lisboetas, assumido como o "mais correcto", é aos franceses que devemos muita da água que separa as duas variantes da língua.

3) Mas não costumam ser os velhos do Restelo a ditar o rumo da história. E talvez essas exacerbadas reacções anti-acordo mais não sejam que o indício disso mesmo, o último estrebuchar do orgulhosamente sós. Assim o espero. E para ilustrar a riqueza da língua em que vos escrevo em ortografia antiga (pois, ainda não fiz o upgrade), um excerto de uma novela exibida pela SIC, para lembrar que isto de sotaques e variantes não se resume a Lisboa e Rio de Janeiro. Deliciosa, é a única novela que consigo ver por mais de 5 minutos só pelo prazer de ouvir as falas.


Mais sobre o dialecto mineiro na Wikipédia.

6 comentários:

Bruno disse...

De fato, no Brasil, mesmo no auge da inflação e desfile de moedas, nunca se usou cêntimos mas sempre centavos. Cêntimos nos soa como algo castelhano. Diz-se 2 euros e 20 centavos ou, se não há valores inteiros, 10 centavos de euro.

Bruno disse...

Quanto à novela são atores cariocas tentando falar como mineiros. Para falar mineirês perfeito, só mesmo nascendo e crescendo nas Minas Gerais.

Opus Night disse...

Também vi esse comentário do Zink e quando ia para o elogiar não consegui. Esta zona dos comentários das notícias online é sempre um pouco suja - a gente vê por curiosidade rasteira e depois quando tenta trazer um pouco de senso à coisa a internet troca-nos as voltas. Mas tenciono em breve alongar-me mais sobre este assunto do Acordo Ortográfico, assim tenha tempo. Abraço.

Pulha Garcia disse...

O texto do Zink está muito bom.

boss disse...

Bruno, cá também se dizia "centavo" no tempo do escudo, até a inflação fazer com que os centavos não valessem nada, e deixassem de circular antes do próprio escudo. Seja como for, "centavo" é a palavra portuguesa para a centésima parte de uma moeda, seja ela qual for.

Mas com o euro e a mania da uniformização tonta ou lá o que foi, lembraram-se que passaria a ser cêntimo - é um mistério para mim quem tomou a decisão, se o governo, se o banco de Portugal, se o BCE.. Mas o certo é que o povo de imediato a abraçou, adoramos francesismos.

Digo francesismo porque é por essa via que nos chegou, embora na prática "cêntimo" seja mais semelhante ao "centimo" castelhano que ao "centime" francês. Mas nem para diferenciar do espanhol o pessoal recupera o "centavo"..

Curioso notar que os dois dicionários on-line portugueses classificam "cêntimo" como galicismo, mas já o brasileiro Michaelis diz que é um castelhanismo.

Opus Night, os assessores de imprensa, tantos que eles são, têm que fazer alguma coisa, um dos passatempos é comentar no Público.

popeline disse...

Como diria uma moça numa rua do Rio de Janeiro depois de insultada :"Você é mesmo muito prepotente". A usar sem moderação quando somos atacados pela pesporrência nacional