quarta-feira, novembro 14, 2007

Isto não é um país sério

«Portugal vai pedir dez anos para aplicar o Acordo Ortográfico da Língua Portugal, que foi assinado há quase 17 anos e que unifica a escrita do português nos países da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP).»

E porque 27 anos não passam de uma correria irreflectida:

«A Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) exprimiu hoje "preocupação" pela possibilidade de o Protocolo Modificativo do Acordo Ortográfico ser ratificado sem previamente se realizar o "indispensável debate público e institucional sobre a matéria".»
Esta gente só pode estar a gozar. Não sei como o Brasil ainda perde tempo... e sobretudo não sei porque esperam os PALOP para adoptarem simples e convenientemente a grafia brasileira. Assim como assim, eu prefiro "vôo" a "voo" e "freqüente" a "frequente", coisas que se perderiam com a aplicação do acordo, para não parecer que só Portugal tinha que fazer alterações... Vá, considere-se então a língua dividida em duas e comecem-se a vender os livros brasileiros por cá, com a facilidade e quantidade com que se vendem os livros ingleses sff.

10 comentários:

Heliocoptero disse...

Convém lembrar que este acordo vai apenas mudar qualquer coisa como 1.6% do vocabulário português de Portugal e que não vai unificar a escrita pelo simples motivo de que aceita o príncipio da grafia diferente em caso de pronúncia diferente. Um exemplo referido ontem à noite na RTPN foi o tónico/tônico e suspeito que vamos ter um caso idêntico com o fato/facto, já que cá continuamos a pronunciar o C antes do T.

Portanto não, não adoptemos pura e simplesmente a grafia brasileira: seria tão ridiculo como eles adoptarem na íntegra a nossa.

Quanto ao pedido de dez anos para implementar o Acordo, é perfeitamente compreensível: uma nova grafia oficial obriga à alteração de dicionários, manuais e programas escolares, publicações oficiais, códigos legais, etc. Se quiseres desembolsar tu o dinheiro para fazer isso tudo num abrir e fechar de olhos, o Estado e os privados agradecem :p

boss disse...

Heliocoptero a questão não é essa. Sim fato/facto, Antônio/António, etc etc etc são para manter no pós-acordo. Mas esses casos servem precisamente para rebaterem o argumento de que "vamos passar a escrever em brasileiro e matar a diversidade da língua". O acordo só mexe com a ortografia, nunca com a fonética - admitindo naturalmente grafias diferentes para diferentes fonéticas. Mesmo que o acordo estivesse já em vigor nos dois países, o português PT e o português BR continuariam a ter muito mais diferenças entre si que, por exemplo, o inglês UK e o inglês US.

A questão não é essa. Mas sim o facto deste país ter assinado um acordo que demorou anos a ser acordado há já 17 anos!! E dizer agora que precisa de 10 para o aplicar é um absurdo, uma desculpa para não o aplicar nunca! 5 anos seria já demasiado lento. Como bem dizes, as alterações na prática são tão poucas que não haveria dificuldade especial em dizer "a partir de 1 Janeiro escreve-se assim, mas como é óbvio o que está escrito antes entende-se e não perde a validade" - sem dramas!

O português é a única língua de grande dimensão que tem actualmente duas normas ortográficas - notar que norma "ortográfica" não é comparável a meia dúzia de casos isolados de grafia diferente, como color/colour no inglês. Isso é uma enorme fragilidade da língua e que coloca sérios entraves à promoção do seu ensino.

De resto eu não digo no post que devíamos passar a usar a grafia brasileira, bem sei que tal seria simplesmente impossível no contexto nacionalista português - pois se nem o acordo aplicamos! O que não entendo é porque não o fazem os PALOP.

Heliocoptero disse...

Não vejo o que é que o não usar a grafia brasileira tem de impedimento nacionalista: parece-me tão razoável que nós não nos limitemos a usar a deles, como eles a nossa. Esta coisa de tudo-o-que-for-defender-algo-nosso-só-pode-ser-nacionalismo-e-só-pode-ser-mau já cansa.

Quanto à demora, convém recordar que, originalmente, o Acordo estipulava que a sua entrada em vigor dependeria da ratificação por todos os países de língua oficial portuguesa. Até 2004, só três é que o tinham feito - Portugal, Brasil e São Tomé - e foi em Julho do mesmo ano que se introduziu uma adenda que reformulou a coisa para poder passar à prática com apenas com três ratificações.

De lá para cá, o Brasil esteve até este ano a preparar a entrada em vigor e, mal o Acordo esteja a ser aplicado, há um período de transição necessário que não pode ser apenas de um dia para o outro: não consegues, por exemplo, ensinar a escrever segundo a nova grafia quando num ano escolar ensina-se uma coisa e no ano seguinte outra, quando um dicionário diz uma coisa e outro diz outra, quando um decreto-lei usa uma forma de escrita e outro outra.

Dito isto, não vejo onde é que há o espanto com os tais dez anos para implemantar o Acordo. Desde que ele seja ratificado em pleno ainda este ano, claro.

boss disse...

Heliocoptero, afinal muda muito ou muito pouco? Por favor decide-te.

Quanto à qualidade das mudanças, pois se na nossa grafia visam apenas simplificar.. o "p" não faz nada em "óptimo", o "c" nada faz em "acção", só por hábito se mantêm.

Já na grafia brasileira é possível argumentar que o "^" facilita a leitura correcta de "vôo", e o mesmo em relação ao "¨" de "freqüente", que assinala que o "u" se lê, ao contrário do de "quente" ;)

Heliocoptero disse...

Muda 1.6% do vocabulário, ou o modo como se escreve, para ser preciso. Não é muito em termos de percentagem, mas é bastante em valores absolutos numa língua que tem as suas centenas de milhares de vocábulos.

Quanto ao "p" em óptimo, o Acordo Ortográfico determina o seu desaparecimento, assim como o da generalidade das consoantes mudas: "acto" passa a escrever-se "ato", "húmido" para a "úmido". Não sei onde é que obtiveste a informação que se iam manter.

Já no que diz respeito à acentuação, não consta que nós tenhamos dificuldade em ler (ou escrever) "voo" por falta de acento circunflexo ou "quente" por falta de um trema. Neste como noutros exemplo, as regras gramaticais encarregam-se de determinar qual a pronúncia correcta de conjuntos de vogais.

Além disso, ganha-se pela simplificação da escrita, ponto em que até se devia ter ido mais longe e eliminado toda uma série de acentos desnecessários (como o da palavra "desnecessários" :p), deixando-se apenas os mais significativos: o til dos ditongos nasalizados, a cedilha, o acento circunflexo onde não há dupla vogal escrita mas existe no som, etc.

boss disse...

Não fui entendido. Dizia que o "p" não faz nada em "óptimo" ou o "h" em húmido, pelo que saem com o acordo, ou seja, simplifica-se. O único argumento possível pela sua manutenção seria o do hábito.

Já o trema em "freqüente" tem argumentos pela preservação para além do mero hábito. É sobretudo útil para estrangeiros que aprendam português. Tal como o circunflexo em "vôo".

E como é óbvio, permanecem muitas inutilidades na língua. Falando em "quente", não se lendo o "u", podia ser "qente". Mas isto é uma ténue reforma, não é nenhuma revolução, e o seu propósito é unificar simplificando e sem muita confusão ;)

Heliocoptero disse...

O problema em "quente" vai para além da grafia: é uma questão gramatical (tal como "questão").

Um "Q" nunca se escreve sem "U", não há uma única palavra portuguesa onde o primeiro ocorra sem o segundo, independentemente de ser ou não mudo. Está lá porque a gramática assim o exige e suspeito que por herança latina.

Para nos livrarmos do "U", só mesmo passando a escrever "cente", mas neste caso ler-se-ia [sente], logo, para poderes ler [kente] tens mesmo que o usar o par inseparável "qu-". A menos, é claro, que se passasse a escrever com "K" ou, em vez de um Acordo Ortográfico, se fizesse um Acordo Gramatical. Tema para infindáveis reuniões e reacções muito, mas muito mais inflamadas.

Quanto à utilidade do trema em "freqüente" e afins, pelo teu raciocínio também seria preciso usá-lo em palavras que usem "-gu-", já que tal como com o "-qu-" nalgumas o "U" é mudo, noutras não. Geralmente a vogal que o acompanha indica se se lê ou não.

Por outro lado, se o trema facilita a leitura, o mesmo não se pode dizer da escrita: lá andaria o coitado do estrangeiro a tentar perceber qual o "U" que leva os pontinhos.

boss disse...

Heliocoptero, eu não sou "lingüista", mas parece-me que estás a confundir gramática com ortografia. A gramática não é para aqui chamada. E sim, no Brasil palavras como "lingüística" ou "lingüiça" levam trema.

Mas isto nem é assunto que valha a pena debater, já que por cá nunca se usou, e, aplicando-se no Brasil, deixa-se de usar lá também.

Mas não entendo porque não se poderia escrever "qente" - é que seria tão simples quanto isto: q-e-n-t-e, e não me caiu nenhum dente a escrevê-lo. Como comentou o Raio num post acima, idiomas há que já por mais que uma vez alteraram o alfabeto com que se escrevem, e há até casos, na ex-Jugoslávia, onde num país se escreve em cirílico e noutro com o latino, sem que a língua sofra com isso nenhuma alteração directa. O exemplo do "qente" era para mostrar que a reforma podia ser uma revolução, mas não é, é ténue.. pequenina.

Mas seria muito mais simples para as crianças aprenderem a ler e escrever se a cada letra correspondesse um só som e vice-versa.. mas poucos são os idiomas onde isso acontece e isso sim, implicaria alterações muito profundas e problemáticas para quem já sabe escrever. Agüentem então as criancinhas com as nossas excepções justificadas apenas pelo "há muito que é assim"..

boss disse...

errata: e aplicando-se o acordo no Brasi...

Heliocoptero disse...

Por muito útil que o possa ser na leitura, não o seria na escrita. Até porque saber em que letra colocar o trema exige que se conheça palavra em se se a conhece, sabe-se como pronunciá-la, logo não precisas do trema. Ou, vendo a coisa de outro prisma, a mudez do "U" em "-que-" não é uniforme: quente, sequestro, delinquente, qualquer, etc. Deixar cair o "U" onde ele é mudo complica a escrita de quem aprende já que tem que saber pronunciar a palavra para saber se se escreve "-qu-" ou apenas "-q-". A coisa fica bem mais simples se a escrita for uniforme para qualquer caso: qualquer estrangeiro ou criancinha sabe que se escreve sempre "-qu-", leia-se ou não o "U".

Como vês, há vantagens para os dois lados e é menos um acento a aflorear a escrita. Até acho que se devia ter ido mais longe e acabado com a acentuação em casos como "tónica" e "António": nós de qualquer modo lemos [ó] e os brasileiros lêem [ô], até se vai permitir dupla grafia, por isso mais valia ter-se decidido por uma única e depois cada qual dá uso ao seu sotaque.