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sábado, junho 16, 2007

Barrigas ideologicamente fracturantes

Está anunciado para o próximo domingo na RTP1 não apenas a repetição dos momentos cavaquistas cortados pela publicidade, por exigência directa da cavacal presidência, mas também uma catita concentração apelidada de "Barrigas de Amor": «O Parque dos Poetas, em Oeiras, vai acolher no dia 17 de Junho, uma campanha inédita de incentivo à natalidade onde o ponto alto será a maior concertação de grávidas do mundo, para entrar no Livro Guinness dos Recordes.»

Isto é o que se lê no site da RTP, o site oficial é ainda mais sinistro. "Mundo ocidental (...) redução da natalidade", "corajosas que assumem a maternidade", "não se pretende entrar no diferendo sobre a interrupção voluntária da gravidez", mas é afinal só isso que pretendem. Rapidamente se percebe que a iniciativa (apoios: Renascença, Ajuda de Berço, etc.) parte dos grupos do Não no referendo. Perdida essa batalha, continua-se a guerra. A invenção e fomento da ideia de baixa natalidade enquanto problema nacional é o próximo passo, Cavaco também já deu para o peditório - não em bebés, mas em disparates.

Os problemas reais do país continuam a ser os relacionados com a educação, saúde, baixos salários... Resolvidos estes, a natalidade sobe naturalmente, para valores que garantem a substituição das gerações e até ligeiros crescimentos demográficos, como acontece há vários anos na Escandinávia. Natalidades muito altas são próprias de países subdesenvolvidos, autênticas fábricas de mão de obra barata e sem qualificação, pronta para ser explorada. Como era Portugal há algumas décadas atrás, realidade que de resto ainda tem reflexos nos dias de hoje.

Voltando às "Barrigas de Amor", o mais abjecto é a falta de honestidade de quem organiza a coisa. O tentar passar algo que não é mais do que pura e dura propaganda política, e da ultra conservadora, como algo giro e inocente, para o Guinness até. Manipulando e usando como bandeiras políticas mulheres naturalmente orgulhosas e satisfeitas com a sua gravidez. Abjecto. E a RTP transmite.

Agora a sério, quando é que o PS aproveita a fama que já tem de controlo da estação pública e, sei lá, tenta controlar efectivamente alguma coisa, ao menos moderar o salazarismo que tresanda da sua programação constantemente?

PS: Valha o segundo canal, o documentário sobre o direito a morrer com dignidade, transmitido ontem, foi excelente. Mas nada que a RTP1 fosse capaz de transmitir em horário nobre, a ideologia é outra, e a liberdade individual não é um valor que lhe interesse promover.

segunda-feira, junho 04, 2007

A memória é curta: recessão demográfica

Cavaco está preocupado com a "quebra" da natalidade em Portugal e uma suposta "recessão demográfica". Diz mesmo que "não encontra precedentes na história do país". Eu não sei por onde Cavaco tem andado, mas no seu tempo de vida teve já oportunidade de presenciar algumas situações de emigração em massa que levaram efectivamente a momentos de recessão demográfica. O caso é tudo menos "sem precedentes", e muitíssimo menos notório (a haver de facto) que o que já foi em momentos recentes da história.

Eu até acredito que Portugal tenha perdido habitantes nos últimos 2 ou 3 anos, muitos imigrantes foram embora e muitos portugueses emigraram, sobretudo a Norte. Mas nada de dramático. Invocar um "problema de natalidade" é invocar um falso problema com vista a promover falsas soluções e toda uma agenda católico-nacionalista que o país dispensa.

Os problemas do país são os fracos salários (muito mais baixos que o que poderiam ser, sem causar qualquer problema de viabilidade às empresas, por muito que insistam no contrário), a crise do interior e do Norte, em grande parte devidas à centralização doentia em torno do Terreiro do Paço, o deficiente e caro serviço nacional de saúde ou o sistema de educação. É isso que faz com que os jovens migrem do interior para o litoral e de Portugal para o mundo. Daí a natalidade baixar, sintoma da crise, não problema per se.

Não há qualquer interesse em estimular uma natalidade muito superior à actual. Uma subida dos salários, uma melhoria da saúde e educação, garantiriam por si só uma ligeira subida, suficiente para garantir a "renovação generacional". O país já tem uma densidade populacional elevada, maior que a espanhola, e o mundo já tem, definitivamente, gente a mais. Além de que se se verificasse um súbito "baby boom" (quiça estimulado pelos apelos de Cavaco), aí sim o país estaria em maus lençóis, sem capacidade económica para cuidar de tanta criançada pelos padrões mínimos actuais. É que se é para ser economicista é bom lembrar que uma criança implica no mínimo 18 anos de despesas, enquanto que um imigrante começa a pagar impostos e a descontar para a segurança social desde o dia zero.

Portanto, se Cavaco quer mais bebés, que os faça (e mantenha do seu bolso), mas não venha atirar areia para os olhos das pessoas, já fartas de populismos e demagogias que nada resolvem.

sábado, março 10, 2007

Crescei e multiplicai-vos, mas, mas, mas...

A ministra da família dinamarquesa vai fazer um tour pelo seu país incentivando à natalidade. A política conservadora considera que a taxa de 1,8 crianças por família (uma das mais altas da Europa) é insuficiente, e aponta estudos que garantem que a maioria das famílias desejaria ter mais filhos. Na sua opinião, as famílias acabam por ser mais reduzidas devido às pressões da sociedade para que tudo na educação dos filhos "seja perfeito", o que implica grandes esforços por cada um. No seu tour ela pretende divulgar a ideia de que nem tudo tem que ser perfeito, apostar mais na quantidade e menos na qualidade. Apesar disso Carina Christensen, assim se chama a ministra de 34 anos, não tem, nem planeia ter em breve, nenhum rebento.

Ainda na Dinamarca, uma série de deputados ficou muito preocupado com a notícia de uma cidadã daquele país, que viajou até ao Reino Unido para ser inseminada artificialmente. Trata-se de uma mulher de 61 anos, que não poderia fazer a inseminação no seu país, que impõe um limite etário de 45 anos. Os deputados querem agora que a União Europeia crie regras comuns a todos os estados membros, por forma a prevenir novas fugas.

Vai ser giro ver o governo português tentar vender em Bruxelas a ideia de que além de um limite etário, a procriação medicamente assistida também deve ser limitada a mulheres casadas...

terça-feira, janeiro 30, 2007

O argumento natalista

Propaganda natalista nazi (esq.) e estalinista (dir.).

"Vai-se legalizar o aborto quando a taxa de natalidade é tão baixa?". É um falso argumento a vários níveis. Desde logo é altamente discutível se a baixa taxa de natalidade é um problema. Mas é sobretudo falso porque se sabe que a criminalização ou não do aborto em nada influencia a taxa de natalidade. Mas nem é isso o que mais choca, o que choca, ou devia chocar, é a facilidade com que alguns vêem as mulheres como meras parideiras ao serviço da pátria. Choca-me que este argumento usado por Hitler e Estaline, precisamente para criminalizarem o aborto, continue ainda hoje, como se nada fosse, como se nada tivesse acontecido, a ser usado com a descontracção e dramatismo fingido com que se canta um fado.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

E não é que os abortistas gays têm natalidades mais altas?

Era bom que a comunicação social desse mais destaque a esta notícia, e confrontasse as pessoas do Não com estes números sempre que vêm com o discurso da natalidade como pseudo-argumento contra a despenalização do aborto ou, já agora, o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Vejam como estão as Dinamarcas, Holandas e as Franças, e como estão as Polónias, Portugais ou as Grécias, e tirem algumas conclusões...