segunda-feira, julho 09, 2007

Suécia deverá aprovar casamento homossexual religioso

É o parlamento sueco que tem discutido o assunto, e 6 dos 7 partidos com assento estão a favor. Até ao ano 2000 a Igreja da Suécia era a igreja do estado, desde aí que se deu a separação entre o estado e a igreja. Mas as leis do primeiro continuam a ser soberanas na segunda. Com a separação entre estado e igreja a adesão à mesma deixou de ser automática para os filhos de um membro, só com o baptismo se faz parte da igreja. Segundo o seu site oficial, 80% das suas despesas são pagas com o dinheiro das quotas dos seus membros. Desde Janeiro deste ano que celebra bênçãos religiosas para casais de pessoas do mesmo sexo.

Em 1995 o estado sueco criou parcerias civis para casais homossexuais, cujos direitos e deveres são em tudo semelhantes ao casamento heterossexual. Em 1995 a Igreja da Suécia era ainda a igreja do estado, e abrir o casamento a casais homossexuais teria implicações também nas cerimónias religiosas, situação que então gerava muitos atritos. Actualmente a gestão da Igreja (nomeações de bispos etc) já não está nas mãos do parlamento, mas de uma nova assembleia, Kyrkomötet, criada para o efeito, igualmente eleita, mas apenas com votos dos membros da Igreja. Esta assembleia ainda não tomou uma decisão oficial sobre a lei que está a ser debatida, mas já foi adiantando que gostaria que os padres pudessem escolher não oficializar esses casamentos.

Comparem a situação sueca com a portuguesa, supostamente um país laico há dezenas de anos.

Em Portugal a igreja com mais membros não tem sede no país, mas no Vaticano. A gestão da igreja é em grande medida decidida no estrangeiro, é o Vaticano que decide quem é o cardeal, só para dar um exemplo. A ICAR portuguesa não cobra uma quota aos seus membros (ao contrário da maioria das organizações, religiosas ou não), antes pede esmola, aos seus fiéis, e exigi-a ao estado, cujos cofres são de todos, católicos ou não. É muito difícil contabilizar o dinheiro que sai dos cofres do estado para os bolsos da igreja, desde dádivas indirectas como isenções de impostos até todo o tipo de subsídios atribuídos pelo governo, câmaras, juntas de freguesia e outras instituições do estado.

A ICAR não está obrigada a obedecer a muitas das regras que as outras organizações a actuar no país estão, a Concordata, acordo entre o estado português e o Vaticano, garante-lhe uma infinidade de privilégios e desobrigações para com o estado. O estado português não tem qualquer poder de decisão dentro da ICAR, e é obrigado a aceitar nomeações da ICAR na função pública (capelões do exército e hospitais são funcionários públicos escolhidos pela ICAR), ao passo que a ICAR rejeita a proibição de discriminação em função do género na hora de formar os seus padres. O estado não se mete na política da ICAR, mas a ICAR mete-se continuamente nas políticas do estado. Um bom exemplo disso é a questão do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, lei que em nada afecta a ICAR, mas sobre a qual já se pronunciou as mais variadas vezes. Os próprios fiéis pouco ou nada podem fazer para influenciarem a gestão e política da organização, competência exclusiva da sua hierarquia.

O leve adianto nos princípios constitucionais do estado português face ao sueco, reflecte afinal na prática um atraso de meio milénio face ao protestantismo escandinavo. Da fundação até hoje, ainda meros lacaios de Roma.

2 comentários:

Mazinha disse...

boss, há uma espécie de "quota", chamada, muito sugestivamente "oferta". Esta "oferta" é dada por alturas da Páscoa ( o padre da minha freguesia NUNCA tem recibos à mão) e quem não cumpre a tradição arrisca-se a pagar valores altíssimos por ocasiões de funerais, baptizados, etc.

o padreco tb n se inibe de lembrar que há pessoas em falta com o "tributo ao senhor" (pelo menos é o que me contam, já q n tenho por hábito ir à missa...)

boss disse...

É verdade mázinha, mas essa quota não é comparável à que pagam, p.ex., os membros da Igreja da Suécia, ou mais perto de nós, os dízimos das igrejas evangélicas.

Aliás, esses dízimos evangélicos são constantemente ridicularizados. Isto faz sentido se for um ateu a fazê-lo, o ateísmo é de borla, mas não é assim no caso da ICAR.

A ICAR limita-se quanto muito a pedir, e não a exigir como obrigação para se pertencer à igreja, um dia de salário por ano, ora isso é quase nada. Só uma parte dos católicos pagam, e nunca daria para cobrir 80% das despesas como acontece na Igreja da Suécia. A ICAR pode dar-se ao luxo de não cobrar quotas e de ridicularizar o dízimo dos outros, porque exige ao estado que use parte dos impostos que recolhe a todos, para financiar as actividades da ICAR.

Isto tem várias vantagens. Desde logo entra muito mais dinheiro, a ICAR exige dinheiro proporcional a + de 90% de pessoas baptizadas, muito embora apenas cerca de 14% dos habitantes assista regularmente a serviços religiosos católicos, e certamente que só uma parte dessa parte estaria disposta a voluntariamente pagar mensalmente uma quota significativa.

Depois o dinheiro que entra por vias travessas desperta menos atenções. Se as despesas da ICAR fossem pagas directamente pelos seus membros estes sentir-se-iam muito mais motivados a seguir atentamente a gestão desse mesmo dinheiro, iam querer ter uma palavra a dizer. O que viola todo o princípio de que "a hierarquia é que sabe".

No fundo a ICAR quer substituir o estado em vários domínios, mas nunca no do cobrador de impostos, isso a ICAR deixa "generosamente" para o estado.