quarta-feira, outubro 18, 2006

Chega de ingenuidades, de uma vez por todas: não é o feto que está em causa

As discussões sobre a IVG agastam-me, cansam-me, aborrecem-me... Tidas tantas vezes, já só tenho pachorra para discutir estratégias, denunciar esquemas do Não etc. Mas volta e meia lá tenho eu que levar com a estória do feto que "é um ser humano pequenino", que nem se vê, mas merece mais atenção que, por exemplo, as 15 mil crianças institucionalizadas neste país. De uma vez por todas, não é isso que está em causa neste referendo.

Alguém que efectivamente acredite na teoria do feto = pessoa não se poderia limitar a votar não no próximo referendo, teria que dizer não à actual lei. A actual lei prevê, por exemplo, que a mulher possa abortar quando a gravidez é fruto de uma violação. Esse feto abortado legalmente é exactamente igual aos fetos abortados ilegalmente, resultantes de relações sexuais consentidas. É esta excepção à criminalização do aborto que melhor explica e ilustra o que efectivamente está em jogo quando se fala da IVG, que "valores" afinal são estes que movem o Não.

A maior parte das pessoas partidárias do Não é favorável a esta excepção, e o motivo que é dado é este: "a mulher não teve culpa". Ou seja, nos restantes casos "a mulher tem culpa". E tem culpa, porque teve sexo, e se teve sexo deve arcar com as consequências, e as consequências do sexo devem ser filhos, aliás, única razão pela qual se deve ter sexo. São estes então os valores do Não.

Se a preocupação fossem os fetos, procurar-se-iam estratégias que reduzissem o número de abortos. Educação sexual nas escolas, acesso facilitado a meios contraceptivos etc. Enfim, tudo coisas que encontram sempre como obstáculos os partidários do Não. Aliás, rapidamente se chegaria à conclusão que o país a imitar seria a Holanda, o país europeu com menos abortos realizados, e não por acaso, o país que penaliza o aborto num menor número de situações (o "aborto livre" é coisa que só existe em algumas cabecinhas menos saudáveis).

Mas não é nada disso que está em causa. O papel da mulher na sociedade é o que se referenda em Janeiro próximo. Deve a mulher ter direito a uma vida sexual orientada pelo seu desejo de prazer (como sempre fez o homem), ou deve a mulher limitar-se ao papel de mãe e esposa?

3 comentários:

F disse...

De facto também não sei mais como se pode argumentar e continuar a discussão. Já tudo se gastou; mas a situação continua igual e continua mal.

Mas se tudo está gasto, não se pode deixar que a inércia ganhe como ganhou da última vez. Não se pode continuar a deixar a ignorância e a idiotice ganharem.

Para mim há, de facto, valores fundamentais. A vida, a liberdade... mas é exactamente por isso que que só o SIM faz sentido neste referendo. Porque cada pessoa deve ter direito sobre a sua vida e por muito que não o queiram é disso que se trata.

Em suma, o comentário era só para congratular o post cirurgico :-)

boss disse...

Obrigado ;)

L disse...

Exactamente. Ditto.
É a continuidade da subjugação sexual da Mulher (a mais antiga e a mais eficaz) que eles querem.
O resto são desculpas, tanto porque estas pessoas não são as mesmas que costumam defender a vida (pena de morte, ecocídio via alterações climáticas, guerra, etc.). Se nem sequer falam nos 4% da população iraquiana que já morreu na 2ª edição da guerra do golfo, porque se preocupariam eles alguma vez com um zigoto?