quinta-feira, maio 31, 2007

O recuo nicotinodependente

Porque é que raio o governo o escolheu o dia mundial do não-fumador para anunciar que afinal as multas para quem fumar em local não permitido não vão ser tão altas como inicialmente anunciado? Qual é a ideia? Não era acabar com o fumo em local público fechado? Palermice pura, mas palermice que sai cara.

Quando Portugal é o país europeu com mais alta percentagem de gente favorável a uma lei firme (alta ao ponto de incluir uma grande percentagem de fumadores), não há desculpas para estes recuos e flexibilizações da lei. A acontecerem o único efeito será matar o propósito da lei (e não será este o único a morrer), tal qual aconteceu em Espanha, onde ninguém liga à dita. Lei flexível é a actual, a que temos desde sempre, os estabelecimentos são livres de proibir o fumo, os fumadores são livres de decidirem não fumar para cima dos outros. Mas o que se verifica é que a maior tolerância dos não-fumadores com o fumo, do que a dos fumadores com a possibilidade de não fumarem, gera uma omnipresença tabágica nos locais fechados. É por isso que o estado deve agir, e deve fazê-lo da única forma capaz de produzir os efeitos pretendidos, banindo o fumo dos locais públicos fechados. Tão simples quanto isto. Se o fazem na Suécia e seus Invernos gelados, em Portugal é ainda mais fácil, sem "mas" nem meio "mas".

PS: E para que fique claro o quão forte é a minha posição neste assunto (sim, eu sim, fascismo higienista etc e tal) adianto que (já que fiz uma declaração de voto na altura) se as eleições legislativas fossem hoje não votaria no Bloco de Esquerda, sendo as suas patetices em torno deste assunto uma das razões mais fortes para não o fazer. A luta pela saúde dos trabalhadores não pode ser hipotecada só porque colide com o cigarrinho dos deputados do Bloco.

12 comentários:

rack disse...

então presumo que vá para o ps ou o pc, onde certamente terá direito a não ser incomodado com o fumo. mas espero também que não leve o seu namorado, eles são capazes de ficar incomodados.

Heliocoptero disse...

Esperemos que o PS se mantenha, ao menos, firma na ideia de não dar liberdade de escolha aos proprietários, que era a mesma coisa que dizer que ninguém ia proibir o tabaco por medo de perder os clientes para o vizinho do lado.

boss disse...

rack, eu não vou, nem nunca fui, para partido algum.. o voto não é um acto de militância, o meu pelo menos nunca o foi...

boss disse...

e já agora rack, nesta legislatura ainda não vi o BE fazer nada pelos direitos LGBT que não fosse mero apoio a iniciativas alheias, da JS e dos Verdes. O seu a seu dono, e o BE tem ficado muitíssimo aquém das suas promessas eleitorais... e pós-eleitorais.

rack disse...

"ir" era num sentido figurado. quanto à militância, ficamos a saber que também é "independente".

rack disse...

Quanto à JS, eu já esperava que viesse com essa. Mas infelizmente a JS é uma alavanca das promessas do PS, que nunca passaram de promessas, ou também acredita nas boas intenções e se deixa levar na conversa da treta do discurso da JS que só serve para as desculpas de mau pagador do PS, que tem maioria absoluta mas tem medo de a exercer ? Quanto ao BE, ainda não existia como tal, e já os partidos que lhe deram origem vinham para a rua falar disto, quando o PCP nem conhecia a palavra homofobia. O BE mantém-se fiel às suas propostas, veja por exemplo quanto à questão da reprodução medicamente assistisda e os direitos reprodutivos das lésbicas, só que o BE tem 8 deputados, não tem 116...Que fez o PS na RMA ? Refugiou-se nos custos e virou costas à questão. São tendências...

boss disse...

Não rack, não sou, de todo, independente. Sou completamente comprometido com valores de esquerda, como a laicidade, a igualdade, etc etc etc, está tudo nas entrelinhas do blog... O que não significa que me comprometa com partidos.

A JS fez tanto como o Bloco nesta legislatura, e nós votamos para legislaturas, não na história dos partidos. Ambos apresentaram o projecto, os Verdes também, ninguém os agendou. Aliás, a JS levou o tema da homofobia para o parlamento no dia 17, o BE não..

Já a questão do sangue, p.ex., praticamente tem sido apenas tratada pelos Verdes.

Finalmente, a RMA, acho que temos fontes bem diferentes. Eu, se bem me lembro, a lei foi aprovada por todos, e não estou a par de nenhum finca pé do BE pelas mulheres solteiras, apresentou e tal, mas no fim votou a lei do PS.. quando podia, e devia, ter votado contra.

Eu não nego o pioneirismo do BE nestes assuntos, simplesmente nos dias que correm é difícil distinguir a acção do Bloco do resto.. Não só aqui, a ousadia e originalidade do Bloco foram perdidos, o Bloco parece-me cada vez mais um meio termo entre o PS e o PCP, ora um ora outro.. não inova, não surpreende, mas também não dá confiança, nunca sabe muito bem o dali vai sair..

Eu estou desiludido, não há outra forma de o dizer. O Bloco pode sempre fazer-me mudar de ideias, aliás, já o fez no passado, espero que o faça de novo.

PS: Mas esta coisa do tabaco foi mesmo a gota de água em todo o tédio que tenho sentido...

joao disse...

OK, então bora proibir também dois homens de se beijarem em público. Pode causar traumas psicológicos....
Isto das maiorias decidirem contras as minorias tem este efeito, somos sempre ditadores quando estamos do lado da maioria e não vemos o outro lado.
Sou favorável à proibição total nos restaurantes pequenos, já nos bares e discotecas acho um exagero. Só peço um pouco de razoabilidade. Boa ventilação, por exemplo....

jpt

boss disse...

Eu peço desculpa a todos os meus amigos fumadores, mas nenhum deles me convence com essa estória identitária.. o tabagismo é uma dependência e um problema de saúde em si mesmo - sim, tal como a homossexualidade foi em tempos considerada, mas já não o é, enquanto que em relação ao tabagismo as provas, estudos etc, são cada vez mais a provar isso mesmo, se quiserem insistir neste paralelismo que me parece particularmente infeliz, mas anyway...

Quanto ao resto sobra a demagogia, se me dizem que eu não sou obrigado a levar com o fumo, porque não sou obrigado a ir aos bares, posso dizer o mesmo aos fumadores... e continuar com paralelismos infelizes, bla bla bla, wiskas saquetas, bla bla bla...

A questão parece-me mais simples, qual é a situação ideal, bares com fumo ou bares sem fumo? Qual deve ser a nossa meta? O fumo deve ser posto em pé de igualdade com o não-fumo? Duas opções legítimas de qualidade do ar nos espaços, que devem ter os mesmos direitos?

boss disse...

Os paralelismos que devem ser feitos são com outros critérios de qualidade e higiene dos espaços que são há muito exigidos pela lei sem que ninguém se choque, pelo contrário.

A ASAE, actualmente quase uma força paramilitar, consegue ser picuinhas com as coisas mais incríveis. Parece-me uma enorme incoerência toda a picuinhice da ASAE com a limpeza do chão, das paredes, etc, p.ex, quando ao mesmo tempo tudo está bem em relação à qualidade do ar..

rack disse...

Termino para dizer duas coisas: ainda bem que fala do sangue, os partidos não são só os grupos parlamentares. no protesto do sangue quem o organizou foram pessoas do BE e não vi lá o PS. Aliás, o PS como maioria que é não tem qq desculpa a não ser a cobardia para não aprovar aquilo que diz que defende.
Quanto à desilusão: O Be quando apareceu caiu nas graças da comunicação social, porque isso interessava a uma certa direita, que viu ali uma força que podia dividir o PSe PC. Agora o BE tem muito mais iniciativas, mais gente e aparece menos nos media...A moda agora são os pseudo-independentes que mais eficazmente (para a tal direita, a dir do capital, porque é mesmo isso que ela é ) vê em pessoas como Helena Roseta muito mais potencial para enfraquecer toda a esquerda, logo são esses que os media vão levar ao colo. O resto são resultados destes factos...são as regras que temos.

boss disse...

Rack, espero que não estejas a dizer que eu faço parte de uma "certa direita" ou sequer da "comunicação social". E for the record, se eu votasse em Lisboa não votaria Roseta, tal como não votei Alegre nas presidenciais.

Lamento, mas eu não vejo esse trabalho extra do Bloco, nos últimos tempos vejo é o Bloco a assumir muitos dos "vícios" dos restantes partidos, e tenho pena.

Mas como disse, nunca fui militante do Bloco, e nunca fui sequer fiel eleitor de qualquer partido. Mas votei sempre, e sempre em partidos de esquerda. E tenciono continuar a fazê-lo.